Nota Epidemiológica

 

Características das pessoas envolvidas em acidentes com veículos de duas rodas

Characteristics of people involved in accidents with two-wheel-vehicles

 

Roberto M. Gonçalves, Andy Petroianu e Jairo R.F. Júnior
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (FM/UFMG). Belo Horizonte, MG - Brasil (R.M.G., J.R.F.J.), Departamento de Cirurgia da FM/UFMG

 

 

INTRODUÇÃO

Além do uso maciço de motocicletas por empresas de prestações de serviços, a bicicleta voltou a ser uma forma de lazer nas grandes cidades. Esses fatores trazem preocupação quanto ao aumento do risco de acidentes envolvendo tais veículos e à gravidade das lesões em conseqüência da pouca segurança oferecida aos condutores. Dada a importância em se conhecer as características dessas ocorrências, e que possam contribuir para sua prevenção, decidiu-se estudar todos acidentes registrados em Belo Horizonte, Minas Gerais, e que tiveram vítimas relacionadas a esse tipo de veículo durante o ano de 1995.

A frota de motocicletas em Belo Horizonte em 2 janeiro de 1996 era de 37.815 veículos, enquanto 2.605 novas carteiras de habilitação (CNH) para motocicletas (categorias A1 e A2) foram expedidas durante o ano de 1995.

 

MÉTODO

Foram estudadas, retrospectivamente, todas as ocorrências policiais de Belo Horizonte registradas na Secretaria de Estado de Segurança Pública de Minas Gerais - SESP/MG, que tiveram vítimas envolvidas em acidentes com veículos de duas rodas (motocicleta ou bicicleta), durante o período de 1 de janeiro a 31 de dezembro de 1995. As ocorrências foram analisadas de acordo com o número de vítimas, a gravidade dos acidentes e a faixa etária dos envolvidos.

Os dados foram analisados estatisticamente pelos teste qui quadrado, t de Student e análise de variância, de acordo com a necessidade. Foram consideradas significativas as diferenças superiores às correspondentes a p = 0,05.

 

RESULTADOS

A Tabela mostra as características das vítimas dos acidentes com veículos de duas rodas. Pode-se observar um predomínio da faixa etária entre 15 e 24 anos, tanto para os acidentes com motocicletas quanto para bicicletas (p < 0,01). Por outro lado, em relação apenas às vítimas fatais, a idade não influenciou na mortalidade (p = 0,39). Apesar de o número de vítimas fatais decorrentes de acidentes com bicicletas ter sido maior do que o registrado com motocicletas, a diferença entre os dois valores não atinge a significância (p = 0,055). Os acidentes com motocicletas causaram 60 % do total de vítimas, enquanto 40 % delas decorreram de acidentes com bicicletas (p < 0,01).

 

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Os resultados evidenciam, principalmente, a gravidade dos acidentes com bicicletas. O desconhecimento ou a pouca divulgação dos dados pode, talvez, contribuir para a manutenção ou aumento do número de vítimas em acidentes com veículos de duas rodas. A visão que se tem da bicicleta, apenas como uma forma de lazer, reduz a consciência de risco e as medidas de prevenção a acidentes são tomadas apenas por uma pequena parcela dos ciclistas.

A falta de ciclovias é outro fator que propicia tais ocorrências. Lamentavelmente, é notória a ineficácia das campanhas publicitárias voltadas à conscientização dos usuários de tais veículos sobre a necessidade da adoção de medidas de segurança. Uma política educacional séria e bem elaborada, que abranja de forma adequada todos os usuários, inclusive os de bicicleta por ser um veículo que oferece pouca segurança ao condutor, aliadas a uma legislação rigorosa e corretamente cumprida pelos órgãos policiais e jurídicos responsáveis, sem dúvida melhoraria essa grave situação.

 

 

Correspondência para/Correspondence to: Roberto Martins Gonçalves - Rua Minas Novas, 97/apto. 401 - 30310-090 Belo Horizonte, MG - Brasil.
Recebido em 26.3.1997. Aprovado em 23.5.1997.

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