COMUNICAÇÕES BREVES

 

Vigilância de leishmaniose visceral americana em cães de área não endêmica, São Paulo

 

Surveillance of American visceral leishmaniasis in dogs from a non-endemic area, Brazil

 

 

Elisa San Martin Mouriz SavaniI; Bernhard von SchimonskyII; Maria Cecilia Gibrail Oliveira CamargoI; Sandra Regina Nicoletti D'auriaI

ICentro de Controle de Zoonoses do Município. São Paulo, SP, Brasil
IICentro de Controle de Zoonoses do Município. São José do Rio Preto, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Realizou-se inquérito sorológico em cães domiciliados e errantes do Município de São José do Rio Preto, SP, para identificar animais infectados e detectar a possibilidade de transmissão da leishmaniose visceral americana. De novembro de 1998 a junho de 2000, 2.104 amostras de soros foram testadas por meio da reação de imunofluorescência indireta, empregando-se como antígeno formas promastigotas de Leishmania (L.) chagasi. Observaram-se 2.092 amostras não reagentes e 12 reagentes. Dos cães com sorologia positiva foi possível realizar raspados de lesão em três animais. O material fixado em lâminas foi corado por Giemsa e, em apenas um, foram encontradas formas amastigotas características de Leishmania sp. Este resultado indica a necessidade de manutenção da vigilância sorológica canina e entomológica no município de São José do Rio Preto, a fim de detectar, precocemente, qualquer alteração na epidemiologia local.

Descritores: Leishmaniose visceral. Vigilância epidemiológica. Cães. Técnica indireta de fluorescência para anticorpo. Zoonose. Vigilância epidemiológica. Leishmania chagasi.


ABSTRACT

A serological survey among domestic and stray dogs of the municipality of São José do Rio Preto, Brazil, was conducted to identify infected animals and detect the chances of transmitting the American visceral leishmaniasis . From November 1998 to June 2000, 2,104 sera samples were tested by indirect immunofluorescence reaction, using as antigen promastigotes of Leishmania (L.) chagasi. There were 2,092 no reactive samples and 12 reactive ones. Of the dogs with reactive serum it was possible to prepare lesion smears in only 3. The slide was stained by Giemsa method and only in one of them it was found amastigotes forms characteristic of Leishmania sp. This finding suggests the need of canine serological and entomological surveillance in São José do Rio Preto for an early detection of any local epidemiological changes.

Keywords: Leishmaniasis, visceral. Fluorescent antibody technique, indirect. Dogs. Zoonoses. Epidemiologic surveillance. Leishmania chagasi.


 

 

A leishmaniose visceral americana é um problema de saúde pública que tem atingido muitos Estados do território brasileiro. Na epidemiologia dessa zoonose, o cão (Canis familiaris) atua como principal reservatório do protozoário Leishmania (Leishmania) chagasi em áreas urbanas.5

A identificação de cães infectados e sua eliminação, com as demais medidas de controle preconizadas pelo Ministério da Saúde, têm contribuído para a redução da infecção humana, pois os casos de calazar canino precedem os humanos em áreas urbanas do Brasil.3,5

O primeiro registro de suspeita de autoctonia de caso humano de leishmaniose visceral americana no Estado de São Paulo ocorreu em 1978 na Grande São Paulo.4 Recentemente, ocorreram casos autóctones em área urbana do Município de Araçatuba, a partir de agosto de 1998 em cães e em 1999 no homem.3

Posteriormente, observou-se transmissão dessa zoonose em cães de outros municípios da região oeste do Estado de São Paulo, de acordo com os dados fornecidos pelo CVE.* Além da detecção da presença do vetor Lutzomyia longipalpis nos municípios com transmissão, foi também registrada sua presença em outros municípios onde ainda não se constataram casos da doença, conforme informações da SUCEN.**

O vetor também já foi detectado em áreas rurais de municípios de outras regiões do Estado, como Pirapora do Bom Jesus, Salto de Pirapora, Cássia dos Coqueiros, Espírito Santo do Pinhal, Itupeva e Socorro.2

O Município de São José do Rio Preto, localizado na região norte do Estado de São Paulo, a 60 km do Estado de Minas Gerais, apresenta 360.857 habitantes (IBGE, 2000) e a população canina estimada, na proporção de um cão para cada sete habitantes, é de 51.551 cães.

Apesar do vetor não ter sido encontrado nesse município até o momento, os achados descritos anteriormente desencadearam o interesse do Centro de Controle de Zoonoses de São José do Rio Preto (CCZ-SJRP) em avaliar a situação epidemiológica.

Com o objetivo de identificar no município a presença de cães infectados e detectar precocemente uma possível transmissão local da doença, foi realizado inquérito sorológico canino no período de novembro de 1998 a junho de 2000.

Cerca de 80% da amostra foi composta por cães encaminhados pelos seus proprietários ao CCZ-SJRP para eutanásia e por animais atendidos em clínicas veterinárias, quando estes eram provenientes de áreas endêmicas da doença ou apresentavam sintomatologia típica. Optou-se por pesquisar esses animais, pois, em caso positivo, seria possível colher nova amostra de sangue e raspado de lesão cutânea para realização do exame parasitológico direto e cultura; bem como realizar investigação mais detalhada a respeito do histórico clínico, procedência e deslocamento do animal, visando desencadear ações de vigilância e controle no local.

Animais errantes foram incluídos quando a sintomatologia era sugestiva ou quando apreendidos em áreas próximas aos casos positivos.

As amostras de soro dos cães foram encaminhadas ao Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo (CCZ-SP) e submetidas à reação de imunofluorescência indireta (RIFI), segundo metodologia utilizada por Savani et al.6 Empregaram-se formas promastigotas de Leishmania (Leishmania) chagasi como antígeno que, conforme Badaró et al,1 demonstrou ser mais sensível e específico para o diagnóstico da leishmaniose visceral americana. A antigamaglobulina de cão marcada com isotiocianato de fluoresceína e o antígeno foram produzidos no CCZ-SP.

Dentre as 2.104 amostras processadas, foram encontradas 2.092 não reagentes e 12 reagentes, com títulos que variaram de 40 a 320 (Tabela).

 

 

O primeiro cão a apresentar sorologia positiva foi encaminhado por uma clínica veterinária. Como na ocasião em que se obteve a amostra de seu sangue o animal apresentava lesões, procedeu-se ao raspado corado pelo Giemsa, onde foram encontradas formas amastigotas características de Leishmania sp. Todavia, não foi possível colher amostras para tentativa de isolamento e identificação do parasita, pois o cão já havia sofrido eutanásia.

Após investigações, verificou-se que, apesar de domiciliado há um ano em São José do Rio Preto, o cão era proveniente do município de Belo Horizonte, MG, região endêmica para leishmaniose tegumentar e visceral. Foi intensificada a busca de amostras na residência do proprietário do animal e nas proximidades, com o objetivo de detectar possíveis cães com sorologia reagente.

Encontraram-se dois cães, na mesma residência de origem do primeiro cão, com exame sorológico reagente e parasitológico direto de lesão negativo. Estes eram levados, esporadicamente, a uma fazenda no município de Cedral, SP. A pesquisa do vetor foi realizada nas casas e na fazenda por técnicos da SUCEN e o resultado foi negativo.

As características dos demais cães reagentes encontram-se descritas na Tabela.

Dos cães com sorologia reagente, quatro foram encaminhados por clínicas veterinárias.

Em áreas onde a transmissão da leishmaniose visceral americana não está confirmada, apenas a sorologia não é suficiente para concluir o diagnóstico, devendo estar sempre associada a dados clínicos, epidemiológicos e parasitológicos. Reações cruzadas podem ocorrer na RIFI com maior freqüência em títulos iguais ou inferiores a 40, o que provavelmente aconteceu com um dos cães analisados.

Apesar das pesquisas realizadas até o momento pela SUCEN serem negativas para Lutzomyia longipalpis no município de São José do Rio Preto, o encontro de animais com sorologia reagente incluindo alguns precedentes de áreas endêmicas, indica a necessidade de se manter a vigilância sorológica canina e entomológica, a fim de detectar precocemente qualquer alteração na epidemiologia local.

 

REFERÊNCIAS

1. Badaró R, Reed SG, Carvalho EM. Immunofluorescent antibody test in American leishmaniasis: sensitivity and specificity of different morphological forms of two Leishmania species. Am J Trop Med Hyg 1983;32:480-4.        

2. Costa AIP, Casanova C, Rodas LAC, Galati EAB. Atualização da distribuição geográfica e primeiro encontro de Lutzomyia longipalpis em área urbana no Estado de São Paulo, Brasil. Rev Saúde Pública 1997;31:632-3.        

3. Galimbertti MZ, Katz G, Camargo-Neves VLF, Rodas LAC, Casanova C, Costa AI, et al. Leishmaniose visceral americana no Estado de São Paulo. Rev Soc Bras Med Trop 1999;32Supl 1:217.        

4. Iversson LB, Camargo ME, Rocha e Silva EO, Chieffi PP, Barros JAC. Investigação epidemiológica de um caso de leishmaniose visceral autóctone da Grande São Paulo, Brasil. Rev Saúde Pública 1979;13:159-67.        

5. Paranhos-Silva M, Freitas LAR, Santos WC, Grimaldi Jr-G, Pontes-de-Carvalho LC, Oliveira-dos-Santos AJ. A cross-sectional serodiagnostic survey of canine leishmaniasis due to Leishmania chagasi. Am J Trop Med Hyg 1996;55:39-44.        

6. San Martin-Savani EM. Inquérito sorológico sobre leishmaniose tegumentar americana em cães errantes do Município de São Paulo, 1995-1996 [Dissertação de mestrado]. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da USP; 1998.        

 

 

Endereço para correspondência
Elisa S. M. M. Savani
Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo
Rua Santa Eulália, 86 Santana
02031-020 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: elisasanmar@yahoo.com.br

Trabalho apresentado no III Congresso do Bem-Estar Animal, Embu, SP, 2000.
Recebido em 3/12/2002
Aprovado em 17/12/2002

 

 

*Informações obtidas do Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo (CVE), em junho de 2000
**Informações obtidas da Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN) em julho de 2000

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revsp@org.usp.br