CLÁSSICOS DOS PRIMEIROS DEZ ANOS LANDMARKS FROM THE FIRST TEN YEARS

 

Comentário: re-leitura e homenagem à Biogeografia, origem e distribuição da domiciliação de triatomíneos no Brasil

 

A re-reading and a homage to Biogeography, origin, and distribution of triatominae domiciliarity in Brazil

 

 

Luiz Jacintho da Silva

Departamento de Clínica Médica. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 

Quando no século 18, Voltaire, Diderot e outros intelectuais franceses resolveram editar a famosa "Encyclopédie", talvez não tivessem idéia da contribuição que seria dada à difusão do conhecimento. Acredito que o mesmo tenha ocorrido com o Professor Oswaldo Forattini quando publicou o seu artigo, hoje clássico, Biogeografia, origem e distribuição da domiciliação de triatomíneos no Brasil.2

Há momentos na história do conhecimento em que obras de síntese sintetizam o conhecimento acumulado até então e, mais importante, direcionam as pesquisas a serem feitas doravante.

O conhecimento sobre a distribuição dos triatomíneos no Brasil começa logo após os trabalhos iniciais de Chagas, em 1909, em São Paulo o primeiro mapeamento geral, em 1914, publicado por Carini & Maciel.1

O artigo do Professor Forattini pode ser considerado um dos pontos altos de uma vida de pesquisa e estudo dos vetores das principais endemias brasileiras. É produto de uma escola de parasitologia que remonta ao final do século 19, em São Paulo e cresceu com a criação, em 1913, da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, hoje Faculdade de Medicina da USP. O Professor Forattini talvez possa ser considerado um dos últimos representantes dessa escola, cujo ramo entomológico é, sem dúvida, entendido como resultado do seu trabalho de mais de meio século, deixando na Faculdade de Saúde Pública um núcleo de entomologia com ramificações pelo País e pelo continente.

Nos dias atuais de biologia molecular, é importante recordar os estudos fundamentais da entomologia aplicada à saúde pública, em que o raciocínio era intrinsecamente ligado aos problemas então existentes.

Faltando pouco para completar um século, a doença de Chagas teve forte impacto na ciência e na saúde pública brasileiras. Dificilmente um pesquisador de parasitologia ou um sanitarista em São Paulo até meados da década de 1970 tenha completado sua carreira sem dedicar uma parte dela à doença de Chagas. A minha geração completou seus estudos de pós-graduação na década de 1980, já podendo analisar a doença de Chagas de uma perspectiva confortável, com a transmissão vetorial recém-interrompida. Tal feito ainda não recebeu o devido valor dos historiadores da saúde pública, e tem nessa publicação um marco referencial importante. Não apenas por sistematizar o conhecimento então existente e formular hipóteses concretas sobre a origem e dispersão dos triatomíneos brasileiros, mas também por ser um exercício de síntese em que a entomologia e a ecologia se encontram. É um estudo verdadeiramente de "história natural", na verdadeira acepção de um termo que caiu em desuso frente à crescente especialização da biologia, da geologia e da ecologia. Forattini faz extenso uso dos estudos de Ab'Saber, outro dos nossos cientistas renascentistas, capaz de traçar quadros amplos e compreensivos da natureza e explicar a atualidade.

A re-leitura, ou leitura para alguns, de Biogeografia, origem e distribuição da domiciliação de triatomíneos no Brasil, deve ser um momento de reflexão sobre quase um século de saúde pública no Brasil. Os triatomíneos não se domiciliam e disseminam por obra do acaso, os determinantes desse processo devem ser buscados nas diferentes disciplinas que permeiam a história natural e a geografia, foi o que o Professor Forattini fez. Apenas alguém forjado dentro de uma visão holística da natureza poderia conseguir isso. A reflexão, porém, vai além do valor científico e acadêmico do artigo, diz respeito ao momento por que passava a saúde pública brasileira.

A abordagem utilizada por Forattini para interpretar a disseminação dos triatomíneos no Brasil deve ser preservada, principalmente por um aspecto do processo de controle da doença de Chagas ora em curso na América. Essa abordagem deverá ser útil num futuro ainda próximo.

O programa coordenado pela Organização Pan-americana da Saúde prevê a eliminação da transmissão vetorial da doença de Chagas pelo Triatoma infestans. A certificação dada, e que a maioria dos Estados brasileiros anteriormente endêmicos já recebeu, diz respeito à transmissão por essa espécie.

A história mostra que a doença de Chagas, como outras doenças transmissíveis, evolui e se adapta às condições ecológicas reinantes, essa uma das lições que Forattini nos ensina. O Triatoma braziliensis, até recentemente um vetor de menor importância, assume uma posição de destaque no nosso "triângulo das Bermudas" da transmissão vetorial da doença de Chagas, a região formada pelo encontro das divisas dos estados do Piauí, Tocantins e Bahia, no Brasil Central. O recuo do T. infestans, uma espécie muito melhor adaptada aos ecótopos artificiais, dá espaço para o T. braziliensis. Esse processo foi mostrado por Forattini, por meio de estudos de campo que se prolongaram por vários anos e que resultaram numa série de publicações, no Estado de São Paulo, onde o T. sordida e o Panstrongylus megistus foram ocupando o espaço deixado pelo T. infestans. A transmissão vetorial não se manteve apenas pelo gradativo desaparecimento da população rural, que virtualmente desapareceu em muitas regiões anteriormente endêmicas do estado de São Paulo.

A famosa frase de que aquele que desconhece a história está condenado a repeti-la cabe aqui. Aquele que se deixa fascinar pelos avanços no controle da transmissão vetorial da doença de Chagas, mas não leva em conta os ensinamentos sintetizados nessa revisão, sem dúvida irá ficar perplexo mais adiante, quando perceber que a transmissão da doença de Chagas se mantém. Os episódios recentes de transmissão alimentar da doença de Chagas devem servir de alerta, o contexto epidemiológico de uma doença não desaparece, apenas muda de características.

A doença de Chagas pode ser relegada a um plano secundário na agenda de prioridades da saúde pública brasileira, mas seria leviano entender que está derrotado de uma vez por todas. Essa, sem dúvida, é a grande lição desse estudo ora republicado pela Revista de Saúde Pública, uma lição que deve ser colocada ao alcance das novas gerações, que vêem a doença dentro de uma nova perspectiva, correta, mas incompleta se não acrescida de estudos como o do Professor Forattini.

 

REFERÊNCIAS

1. Carini A, Maciel JJ. Distribution des Triatomes dans l'Etat de São Paulo. Bull Soc Pathol Exot. 1914;7:229-95.

2. Forattini OP. Biogeografia, origem e distribuição da domiciliação de triatomíneos no Brasil. Rev Saúde Pública. 1980;14:265-99.

 

 

Correspondência | Correspondence:
Luiz Jacintho da Silva
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