ARTIGOS ORIGINAIS

 

Fatores psicossociais e organizacionais na adesão às precauções-padrão

 

Factores psicosociales y organizacionales en la adhesión a las precauciones-estándar

 

 

Maria Meimei Brevidelli; Tamara Iwanow Cianciarullo

Curso de Graduação de Enfermagem. Instituto de Ciências da Saúde. Universidade Paulista. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a influência de fatores psicossociais e organizacionais na adesão às precauções-padrão para prevenir a exposição a material biológico em hospital.
MÉTODOS: Estudo transversal realizado com 270 profissionais médicos e de enfermagem de um hospital universitário em São Paulo, SP, em 2002. Após seleção por amostragem casual simples, os participantes responderam um questionário sobre variáveis psicossociais na forma de escala de Likert. Foram avaliadas a validade de constructo (análise fatorial) e a confiabilidade (coeficiente alfa de Cronbach). A associação dos fatores psicossociais com a adesão às precauções-padrão foi obtida por meio de análise de regressão logística múltipla, com eliminação retrógrada de variáveis não significativas.
RESULTADOS: As escalas mostraram validade e confiabilidade satisfatórias (coeficiente alfa de Cronbach entre 0,67 e 0,82). Fatores individuais relativos ao trabalho e organizacionais explicaram 38,5% do índice global de adesão às precauções-padrão. Esse índice global apresentou associação significativa entre adesão e pertencer ao grupo profissional de médicos, ter recebido treinamento em precauções-padrão no hospital, perceber menos intensamente os obstáculos para seguir as precauções-padrão, perceber mais intensamente a carga de trabalho, o feedback das práticas de segurança e as ações gerenciais de apoio à segurança.
CONCLUSÕES: Fatores individuais, relativos ao trabalho e organizacionais influenciam conjuntamente a adesão às precauções-padrão. Programas de prevenção da exposição ocupacional a material biológico devem considerar os obstáculos para seguir as precauções-padrão na prática clínica e enfatizar políticas organizacionais de apoio à segurança no trabalho.

Descritores: Pessoal de Saúde. Precauções Universais. Medidas de Segurança, utilização. Gerenciamento de Segurança, normas. Conhecimentos, Atitudes e Prática em Saúde. Escalas. Reprodutibilidade dos Testes. Estudos Transversais.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar la influencia de factores psicosociales y organizacionales en la adhesión a las precauciones-estándar para prevenir la exposición a material biológico en hospital.
MÉTODOS: Estudio transversal realizado con 270 profesionales médicos y de enfermería de un hospital universitario en Sao Paulo, Sureste de Brasil, 2002. Posterior a la selección por muestreo casual simple, los participantes respondieron un cuestionario sobre variables psicosociales en la forma de escala de Likert. Fueron evaluadas la validez del constructo (análisis factorial) y la confiabilidad (coeficiente alfa de Cronbach). La asociación de los factores psicosociales con la adhesión a las precauciones-estándar fue obtenida por medio de análisis de regresión logística múltiple, con eliminación retrógrada de variables no significativas.
RESULTADOS: Las escalas mostraron validez y confiabilidad satisfactorias (coeficiente alfa de Cronbach entre 0,67 y 0,82). Factores individuales relativos al trabajo y organizacionales explicaron 38,5% del índice global de adhesión a las precauciones-estándar. Ese índice global presentó asociación significativa entre adhesión y pertenecer al grupo profesional de médicos, haber recibido entrenamiento en precauciones-estándar en el hospital, percibir menos intensamente los obstáculos para seguir las precauciones-estándar, percibir más intensamente la carga de trabajo, el feedback de las prácticas de seguridad y las acciones gerenciales de apoyo a la seguridad.
CONCLUSIONES: Factores individuales, relativos al trabajo y organizacionales influencian conjuntamente la adhesión a las precauciones-estándar. Programas de prevención de la exposición ocupacional a material biológico deben considerar los obstáculos para seguir las precauciones-estándar en la práctica clínica y enfatizar políticas organizacionales de apoyo a la seguridad en el trabajo.


 

 

INTRODUÇÃO

Para garantir a prevenção da exposição ocupacional a material biológico, as precauções-padrão (PP)ª recomendam que profissionais de saúde considerem todos os pacientes potencialmente contaminados quando houver possibilidade de contato com sangue e outras secreções. As principais recomendações incluem: uso de equipamentos de proteção individual (EPI) sempre que houver possibilidade de contato com secreções orgânicas, manipulação cuidadosa e descarte adequado de objetos perfurocortantes.11

A despeito do reconhecimento da importância das PP, estudos mostram que os níveis de adesão são insatisfatórios, a exemplo do uso inadequado e seletivo do EPI,3,9,16 da freqüente prática de reencapar agulhas16,20 e da variação dos níveis de adesão de acordo com a categoria profissional.3,8,16

Na literatura, pesquisas relatam indicadores de aspectos psicossociais que interferem na adoção das PP. Por exemplo, o modo como as PP interferem no desempenho do trabalho é percebido como barreira ou "obstáculo",6 conforme observado em relato de profissionais de saúde que consideram a perda da destreza manual na utilização de luvas durante o procedimento de punção venosa.4,9,19 Outras justificativas citadas para não aderir são: desconforto, inconveniência, "luvas aumentam chance de acidentes com agulhas" ou "não vestem bem".5,7,10,19

Outro aspecto está relacionado à crença dos profissionais de que a adoção das PP não diminui acidentes percutâneos, justificando a não utilização de luvas durante manipulação de "perfurocortantes".10

A própria dinâmica do trabalho em saúde pode gerar conflito de interesses entre atender as necessidades dos pacientes e utilizar EPI.12 Isso é particularmente evidente em unidades de urgência e emergência. Nessas circunstâncias, as necessidades de atendimento podem ser tão urgentes que a preocupação com a própria segurança assume uma perspectiva distante e conflitante. Nesse sentido, "tempo insuficiente", "esquecimento" e "precauções não são práticas" são apontados como razões para não aderir.2,10

A adesão às PP pode ser influenciada pelo clima de segurança organizacional. Trata-se da percepção, compartilhada pelos profissionais, do valor atribuído à segurança no trabalho.6 Maiores níveis de adesão foram correlacionados ao comprometimento e apoio da gerência com a segurança, ao feedback de colegas e supervisores sobre o uso de práticas seguras, à importância do treinamento e à disponibilidade do EPI.7,12,17

A fim de analisar aspectos psicossociais que permeiam o comportamento dos profissionais de saúde em relação ao trabalho e ao contexto organizacional, DeJoy et al5,6,7 (1995;1996;2000) desenvolveram o Modelo de Sistemas de Trabalho, que estabelece a adoção das precações universais em três níveis. No primeiro nível, está o profissional de saúde com suas características pessoais e experiência profissional. No segundo, estão a tarefa e a dinâmica do trabalho em saúde, cujas demandas assistenciais podem competir com a segurança pessoal. E no último nível está o contexto organizacional, no qual a segurança pode ser um valor cultural e a gerência pode favorecer a adoção das PP.

O presente estudo teve por objetivo analisar a influência de fatores psicossociais e organizacionais na adesão às PP para prevenir a exposição a material biológico em hospital.

 

MÉTODOS

Estudo transversal, realizado com profissionais de saúde expostos a riscos biológicos em hospital universitário de São Paulo, SP, entre maio e julho de 2002. Nessa época, essa população era composta por 264 médicos e 624 profissionais da enfermagem, totalizando 888 profissionais.

Em 1992, o hospital estudado implantou as precauções universais e, posteriormente, entre 1998 e 1999, as PP por meio de treinamento da equipe de enfermagem. Para a equipe médica, foi disponibilizada somente uma apostila explicativa.

Para realização da pesquisa definiu-se um plano amostral (por amostragem casual simples) que permitisse identificar diferenças entre as duas categorias profissionais. Como não se conhecia a priori a variância no universo das variáveis analisadas, considerou-se a hipótese de eqüiprobabilidade entre as cinco alternativas de cada pergunta do questionário. Considerando um erro amostral de 5%, seria necessária uma amostra de 149 médicos e 221 profissionais de enfermagem, totalizando 370 profissionais. No entanto, considerando-se perdas potenciais de 12,5%, foram sorteados 416 indivíduos.

Para o sorteio dos profissionais, foram constituídos subgrupos homogêneos para cada grupo profissional (médicos e enfermeiros) quanto ao sexo, faixa etária, tempo de trabalho na instituição e escolaridade (somente enfermagem).

Para coleta dos dados, foi utilizado um questionário constituído por variáveis demográficas e escalas psicométricas, originais de Gershon et al12 (1995) e DeJoy et al5 (1995). As escalas do tipo Likert, com cinco opções de resposta (desde concordo plenamente até discordo plenamente), foram submetidas à adaptação transcultural, seguindo as etapas descritas por Guillemin14 (1995).

Com a versão preliminar das escalas foi realizado um pré-teste em uma pequena amostra de profissionais e após a ponderação das sugestões, foi obtida a versão final do questionário contendo:

• variáveis sociodemográficas: sexo, idade, nível educacional, tempo de trabalho na profissão, tempo de trabalho no hospital, total de horas trabalhadas na semana, forma como tomou conhecimento das PP e respectivo treinamento no hospital;

• escalas de "conhecimento da transmissão ocupacional do HIV" (oito itens); "percepção de risco" (cinco itens); "personalidade de risco" (seis itens); "eficácia da prevenção" (três itens); "obstáculos para seguir PP" (sete itens); "carga de trabalho" (três itens); "clima de segurança" (17 itens); "disponibilidade do equipamento de proteção individual" (três itens); "treinamento em prevenção da exposição ocupacional ao HIV" (quatro itens); "adesão às PP" (13 itens).

O presente estudo propõe um modelo explicativo da adesão às PP que analisa uma intersecção entre fatores individuais (aspectos sociodemográficos, conhecimento da transmissão ocupacional do HIV, percepção de risco, personalidade de risco, eficácia da prevenção), do trabalho (obstáculos para seguir PP, carga de trabalho) e organizacionais (clima de segurança, disponibilidade do equipamento de proteção, treinamento para prevenção da exposição ao HIV).

Foram testadas como hipóteses do estudo que a adesão às PP é influenciada simultaneamente pelos três fatores (individuais, relativos ao trabalho e organizacionais) e que os instrumentos utilizados para mensuração das variáveis possuem validade de constructo e confiabilidade adequada.

Dos 416 questionários distribuídos, foram respondidos 293 (70,4%). Destes, 213 (72,7%) eram da equipe de enfermagem e 80 (27,3%) de médicos. Dentre os médicos, 23 revelaram não conhecer as PP e foram excluídos da amostra. Assim, o total de participantes foi de 270 profissionais, sendo 213 de enfermagem e 57 médicos.

Na amostra estudada, houve predominância do sexo feminino no grupo de enfermagem (93,4%) e, no grupo de médicos, as proporções foram semelhantes entre os sexos (46,4% masculino e 53,6% feminino). Houve diferenças entre os dois grupos profissionais em relação ao nível educacional e ao total de horas trabalhadas na semana (Tabela 1).

Para análise da validade de constructo, foi realizada análise fatorial exploratória. Essa análise seguiu quatro etapas: (1) verificação da existência de correlação entre os fatores (r>0,30), utilizando o método de componentes principais com rotação oblíqua; (2) redefinição do método de rotação de fatores para rotação ortogonal quando não houve correlação entre eles (r<0,30); (3) seleção dos componentes que apresentaram eigenvalue > 1, observando a percentagem de variância explicada por eles; (4) confirmação das dimensões teóricas previamente definidas, por meio da observação da matriz estruturada (rotação oblíqua) ou da rotacionada (rotação ortogonal), considerando apenas os itens com carga fatorial > 0,30 no seu fator de origem.

Para a análise da confiabilidade foi calculado o coeficiente alfa de Cronbach (α), cuja amplitude varia de 0 a 1. Escalas com valores mais próximos de 1 indicam maior confiabilidade. Assim, foram consideradas adequadas escalas com α > 0,60.

Para determinar a influência dos fatores individuais, relativos ao trabalho e organizacionais (variáveis independentes) na adesão às PP (variável dependente) foi utilizada a análise de regressão logística múltipla, com eliminação retrógrada de variáveis não significativas.

Por meio dessa técnica, a análise de preditores da variável dependente foi realizada em estágios. No primeiro estágio, utilizando o método "Enter", todas as variáveis independentes foram consideradas simultaneamente. Utilizando o método backward, os estágios seguintes buscaram aprimorar os resultados do estágio anterior, retirando as variáveis não significativas a 5%, de tal forma que o resultado final representou o modelo explicativo da variável dependente sem redundância de parâmetros.

Duas abordagens distintas foram utilizadas para predizer a variável dependente. Na primeira abordagem, "adesão às PP" foi considerada um constructo unidimensional. Na segunda, alguns itens foram agrupados para distinguir a adesão em relação ao uso de EPI ou manipulação e descarte de objetos perfurocortantes.

O software SPSS, versão 11.0, foi utilizado para os procedimentos estatísticos.

O estudo foi aprovado pelo Núcleo de Ensino e Pesquisa e da Comissão de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo.

 

RESULTADOS

Com relação à questão "forma como tomou conhecimento das PP", as opções "na escola ou universidade" e "palestra no hospital" foram relatadas, respectivamente, por 39,4% e 30,8% dos profissionais de enfermagem. Por outro lado, entre os médicos, a maioria (73,2%) disse ter conhecido as PP na universidade. De forma semelhante, na questão "recebimento de treinamento em PP no hospital ", a maioria dos médicos (94,6%) relatou não ter recebido, enquanto a maioria dos profissionais de enfermagem (81%) relatou ter recebido.

Na análise fatorial, as escalas foram submetidas à extração dos fatores até se obter o resultado mais satisfatório, apresentado na Tabela 2 juntamente com os coeficientes de confiabilidade.

Os fatores formados confirmaram os seguintes constructos: "conhecimento da transmissão ocupacional do HIV"; "percepção de risco"; "personalidade de risco"; "eficácia da prevenção"; "obstáculos para seguir as PP"; e "carga de trabalho". Um novo fator foi formado, agrupando itens das escalas iniciais de "treinamento em prevenção da exposição ocupacional ao HIV" e "disponibilidade do EPI", assim denominado: "treinamento e suporte estrutural para segurança". A variância explicada pelos sete fatores foi de 54,9% e os coeficientes α > 0,60.

A escala de "clima de segurança" foi analisada separadamente, pois a análise fatorial inicial constatou existência de correlação entre dois componentes. O resultado final dessa análise está na Tabela 3, juntamente com os coeficientes de confiabilidade. A análise revelou dois novos fatores, assim denominados: "ações gerenciais de apoio à segurança" e"feedback das práticas seguras". O total da variância explicada pelos dois fatores foi de 47,6% e os coeficientes α > 0,60.

A escala de "adesão às PP" foi analisada separadamente e nenhum resultado mostrou significado, pois os itens agrupados não possuíam afinidade teórica. Por essa razão, esses resultados não foram apresentados.

A Tabela 4 apresenta os resultados do modelo explicativo final da adesão às PP (constructo unidimensional). As variáveis explicativas foram: pertencer ao "grupo profissional" de médicos (beta= -0,307; p<0,0001); ter recebido "treinamento em PP no hospital" (beta= 0,298; p<0,0001); ter menor percepção de "obstáculos para seguir as PP" (beta= -0,384; p<0,0001); ter maior percepção da "carga de trabalho" (beta= 0,244; p<0,0001), do "feedback das práticas seguras" (beta= 0,248, p=0,001), e das "ações gerenciais de apoio à segurança" (beta=0,141, p<0,05). Em conjunto, estas variáveis explicaram 38,5% da variância [R2= 0,385; F(6,191)=19,266; p<0,0001].

A Tabela 5 apresenta o modelo explicativo final da adesão ao "uso de EPI" e à "manipulação e descarte de objetos perfurocortantes". As variáveis explicativas do "uso de EPI" foram: pertencer ao "grupo profissional" de médicos (beta= -0,259; p<0,01); ter recebido "treinamento em PP no hospital" (beta=0,197; p<0,05); ter menor percepção de "obstáculos para seguir as PP" (beta= -0,322; p<0,0001); ter maiores percepções da "carga de trabalho" (beta= 0.265; p<0,0001), do "feedback das práticas seguras" (beta=0.226, p<0,01), e das "ações gerenciais de apoio à segurança" (beta=0,169, p<0,05). Em conjunto, essas variáveis explicaram 32,4% da variância [R2= 0,324; F(6,198)=15,337; p<0,0001].

As variáveis explicativas da "manipulação e descarte de objetos perfurocortantes" foram: "conhecimento da transmissão ocupacional do HIV" (beta=0,176; p=0,01); ter menor percepção de "obstáculos para seguir as PP" (beta= -0,129; p=0,056); ter maior percepção do "feedback das práticas seguras" (beta=0,259, p<0,0001). Em conjunto, essas variáveis explicaram 13,4% da variância [R2= 0,134; F(3,201)=10,211; p<0,0001].

 

DISCUSSÃO

O estudo mostrou a influência de fatores psicossociais na adesão às PP, corroborando a hipótese de que a adesão às PP foi influenciada simultaneamente por fatores individuais, relativos ao trabalho e organizacionais.

Com relação aos limites do estudo, o número de participantes ficou aquém do estabelecido no plano amostral. Em relação ao grupo de enfermagem, as 213 respostas válidas permitem extrapolar os resultados para o universo com grau de confiança de 5,1%, próximo dos 5% planejados. Já no caso da amostra de médicos, os 57 questionários válidos nos permitem extrapolar os resultados da amostra para o universo com erro amostral de aproximadamente 10%, valor maior que o planejado. Dessa forma, é possível que os erros-padrão das médias dos itens analisados sejam maiores para os médicos do que para os profissionais de enfermagem. Contudo, a comparação entre as médias amostrais obtidas pelas duas categorias profissionais nos itens do questionário permanece válida, uma vez que basta avaliar, para cada item separadamente, se os grupos têm igual variância para que se aplique o teste de diferença de médias corretamente.

Os instrumentos utilizados para medir as variáveis revelaram validade de construto, corroborando a hipótese 2, pois a análise fatorial revelou fatores compatíveis com o arcabouço teórico.

A junção dos constructos "treinamento em prevenção da exposição ocupacional ao HIV" e "disponibilidade do EPI" em um único constructo "treinamento e suporte estrutural para segurança" foi considerada adequada, pois as variáveis são complementares e caracterizam condições estruturais que estimulam e suportam a adoção das práticas seguras.

A escala inicial de "clima de segurança" foi redefinida por dois novos fatores, "ações gerenciais de apoio à segurança" e "feedback das práticas seguras", compatíveis com o arcabouço teórico. O primeiro fator reuniu itens relacionados ao comprometimento da gerência com a segurança no trabalho, por meio da definição de ações e de políticas de apoio. O segundo fator agrupou itens relacionados a políticas de controle na forma de feedback das práticas seguras, realizado de maneira formal (avaliação dos supervisores) e informal (pelos colegas).

Todas as escalas demonstram confiabilidade adequada (hipótese 2), pois os coeficientes α de Cronbach foram > 0,60 (entre 0,67 e 0,82).

Ao testar o modelo teórico proposto, constatamos a influência simultânea dos fatores individuais, relativos ao trabalho e organizacionais na adesão às PP. No primeiro modelo (índice global), os profissionais mais aderentes pertenciam ao "grupo profissional" de médicos; tinham recebido "treinamento em PP no hospital"; tinham menor percepção de "obstáculos para seguir as PP" e, maior percepção da "carga de trabalho"; recebiam "feedback das práticas seguras", e percebiam as "ações gerenciais de apoio à segurança".

"Uso de EPI" (segundo modelo) foi explicado pela mesma combinação de variáveis. Diferentemente, "manipulação e descarte de perfurocortantes" (terceiro modelo) foi explicada por: "conhecimento da transmissão ocupacional do HIV"; ter menor percepção de "obstáculos para seguir as PP"; ter maior percepção de "feedback das práticas seguras".

Além disso, a percentagem de variância explicada nos modelos propostos (38,5% para índice global, e 32,4% para uso de EPI) atingiu níveis superiores aos estudos que utilizaram o mesmo arcabouço teórico. No estudo de DeJoy et al5 (1995), as variáveis "obstáculos do trabalho", "disponibilidade do EPI" e "feedback do desempenho" explicaram 16% da variância da adesão às precauções universais. Em 2000, novamente DeJoy et al7 verificou que "disponibilidade dos EPI", "obstáculos do trabalho", "prioridade da gerência com segurança", "feedback formal" e "feedback informal", explicaram 18% da variância da adesão aos EPI.

No presente estudo, algumas das variáveis significativas mostraram grande importância explicativa. Dentre os fatores individuais, os profissionais mais aderentes pertenciam ao grupo profissional de médicos e receberam treinamento em PP no hospital.

À primeira vista, esse resultado pode parecer paradoxal, uma vez que 94,6% dos médicos não receberam treinamento em PP no hospital, contrapondo 81% dos profissionais de enfermagem que relataram ter recebido. A interpretação para esse achado é a seguinte: mantendo constantes nos dois grupos profissionais todas as demais variáveis de influência significativa sobre a adesão, os médicos revelaram ser mais aderentes. Isso significa que, entre dois profissionais, um médico e outro da enfermagem, com iguais escores nos fatores de influência, os médicos aderiram com maior intensidade às PP. Contudo, uma vez que a amostra de médicos obtida não atingiu o valor estipulado no plano amostral, somente a replicação do estudo com amostra adequada poderia validar essa interpretação.

Além disso, ter recebido treinamento em PP no hospital influenciou positivamente o "índice global" e o "uso de EPI". Esse resultado nos remete ao fato de os médicos não terem recebido treinamento em PP no hospital. Infelizmente, esse não é um dado isolado. Um estudo realizado em 153 hospitais de Iowa e Virginia (Estados Unidos) para caracterizar programas organizacionais relacionados à prevenção da exposição ocupacional a material biológico constatou que 27% dos médicos não haviam recebido treinamento em PP. Os autores ressaltam que, raramente, o treinamento de médicos para a segurança no trabalho é uma exigência.1 Esses dados indicam a necessidade da inclusão dos médicos em programas futuros sobre as recomendações das PP.

Dentre os fatores relativos ao trabalho, o modelo previu que os profissionais mais aderentes percebiam menos intensamente os "obstáculos para seguir as PP" e mais intensamente a "carga de trabalho".

A "percepção de obstáculos", também denominada "conflito de interesses" em outros estudos, tem mostrado significativa importância no estudo da adesão às PP. Segundo DeJoy et al5 (1995) e Murphy et al18 (1996), a adesão às precauções universais foi maior quando a percepção de "obstáculos do trabalho" foi menor. Para Michaelsen et al17 (1997), médicos não aderentes perceberam 2,3 vezes mais o "conflito de interesses" do que os aderentes. Em outro estudo, DeJoy et al7 (2000) concluíram que os "obstáculos do trabalho" explicaram o "índice global de adesão" e a "adesão ao uso de EPI". Gershon et al13 (2000) relataram que a "adesão rigorosa às precauções universais" foi correlacionada à ausência de "obstáculos do trabalho".

De maneira contraditória, a percepção de "carga de trabalho" influenciou positivamente a "adesão às PP". Resultado semelhante foi obtido no estudo de Johnson et al15 (1995) que examinou a relação entre "percepção da demanda de trabalho", e "insatisfação com o trabalho", em uma amostra de médicos. De forma inesperada, aqueles que relataram maiores percepções sobre as demandas de trabalho revelaram menores níveis de insatisfação.

Os autores atribuíram esse resultado à própria natureza do trabalho médico, cuja elevada demanda pode ser percebida como estressante e ao mesmo tempo estimulante, excitante. De maneira similar, no presente estudo, consideramos que a alta demanda de trabalho percebida esteve associada à grande responsabilidade e concentração que, por sua vez, favoreceram a adesão às PP.

Com relação aos aspectos organizacionais, as percepções sobre "treinamento e disponibilidade do equipamento de proteção", "feedback das práticas seguras", e "ações gerenciais de apoio à segurança" foram favoráveis à "adesão às PP". Esses resultados são semelhantes a outros estudos nos quais: "disponibilidade do equipamento de proteção" foi correlacionada à "adesão às PP", em profissionais de enfermagem;7,18feedback formal e informal explicou "adesão global às PP", e "uso de EPI";7 "suporte da gerência" explicou "adesão às precauções universais";13 e "clima de segurança" explicou acidentes no trabalho e adoção de práticas seguras.9

Concluímos que o modelo explicativo da adesão às PP indicou aspectos importantes para subsidiar a elaboração de programas de prevenção da exposição ocupacional a material biológico. O primeiro está relacionado aos fatores relativos ao trabalho. A identificação dos obstáculos como fator de influência sugere que esses aspectos sejam discutidos no treinamento. Isso implica desenvolver, durante o treinamento, habilidades cognitivas, psicomotoras e comportamentais que possam ajudar os profissionais a ultrapassar os obstáculos percebidos. Por exemplo, durante o treinamento, podem ser recriadas situações da prática clínica que, apesar das dificuldades, requerem adoção das PP.

O segundo aspecto está relacionado à relevância dos fatores organizacionais no modelo explicativo. Isso indica que é importante enfatizar todo suporte estrutural existente na instituição que favorece adoção das PP, isto é: (1) suprimento e disponibilidade do EPI são adequados; (2) supervisão e feedback do uso das PP e; (3) políticas institucionais que apóiem a segurança, tais como registro e acompanhamento do profissional acidentado, que inclui profilaxia pós-exposição e disponibilidade de vacinação para hepatite B.

Assim, esperamos que o modelo explicativo da adesão às PP possa subsidiar a compreensão mais abrangente desse problema e a busca de soluções mais efetivas para o gerenciamento dos riscos biológicos em hospitais.

 

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Correspondência | Correspondence:
Maria Meimei Brevidelli
R. Ministro Godói, 313, apto 131 - Perdizes
05015-000 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: meimei@usp.br

Recebido: 9/12/2008
Aprovado: 27/4/2009

 

 

a Os termos "precauções-padrão" e "precauções universais" foram considerados sinônimos e significam o conjunto de medidas preventivas de exposições ocupacionais a sangue e outros fluidos orgânicos. Apesar de haver diferenças conceituais entre os dois protocolos, os princípios e fundamentos semelhantes de ambos são os aspectos de interesse do presente estudo.

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