Antivirais incorporados no Brasil para hepatite B crônica: análise de custo-efetividade

Antivirales incorporados en Brasil para hepatitis B crónica: análisis de costo-efectividad

Gustavo Laine Araújo de Oliveira Alessandra Maciel Almeida Anderson Lourenço da Silva Cristina Mariano Ruas Brandão Eli Iola Gurgel Andrade Mariângela Leal Cherchiglia Francisco de Assis Acurcio Sobre os autores

Resumos

OBJETIVO

Avaliar o custo-efetividade de diferentes tratamentos medicamentosos para hepatite B crônica entre pacientes adultos.

MÉTODOS

Utilizando modelo de Markov, construiu-se coorte hipotética de 40 anos para pacientes HBeAg-positivo ou HBeAg-negativo. Foram comparados os usos de adefovir, entecavir, tenofovir e lamivudina (com terapia de resgate em caso de resistência viral) para tratamento de pacientes adultos com hepatite B crônica, virgens de tratamento, com elevados níveis de alanina aminotransferase, sem evidência de cirrose e sem coinfecção por HIV. Valores para custo e efeito foram obtidos da literatura. A medida do efeito foi expressa em anos de vida ganhos (AVG). Taxa de desconto de 5% foi aplicada. Análise de sensibilidade univariada foi conduzida para avaliar incertezas do modelo.

RESULTADOS

O tratamento inicial com entecavir ou tenofovir apresentou melhores resultados clínicos. As menores razões custo-efetividade foram de entecavir para pacientes HBeAg-positivo (R$ 4.010,84/AVG) e lamivudina para pacientes HBeAg-negativo (R$ 6.205,08/AVG). Para pacientes HBeAg-negativo, a razão custo-efetividade incremental de entecavir (R$ 14.101,05/AVG) está abaixo do limiar recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Análise de sensibilidade mostrou que variação nos custos dos medicamentos pode tornar tenofovir alternativa custo-efetiva tanto para pacientes HBeAg-positivo quanto para HBeAg-negativo.

CONCLUSÕES

Entecavir é alternativa recomendada para iniciar o tratamento de pacientes com hepatite B crônica no Brasil. Contudo, se houver redução no custo de tenofovir, esta pode se tornar alternativa mais custo-efetiva.

Hepatite B Crônica, quimioterapia; Antivirais, provisão & distribuição; Avaliação de Custo-Efetividade; Sistema Único de Saúde, economia


OBJETIVO

Evaluar el costo-efectividad de diferentes tratamientos medicamentosos para hepatitis B crónica entre pacientes adultos.

MÉTODOS

Utilizando el modelo de Markov, se construyó cohorte hipotética de 40 años para pacientes HBeAg-positivo o HBeAg-negativo. Se compararon los usos de adefovir, entecavir, tenofovir y lamivudina (con terapia de rescate en caso de resistencia viral) para tratamiento de pacientes adultos con hepatitis B crónica, vírgenes de tratamiento, con elevados niveles de alanina aminotransferasa, sin evidencia de cirrosis y sin coinfección por VIH. Valores para costo y efecto fueron obtenidos de la literatura y efecto en años de vida ganados (AVG). Tasa de descuento de 5% fue aplicada. Análisis de sensibilidad univariado fue conducido para evaluar incertidumbres del modelo.

RESULTADOS

El tratamiento inicial con entecavir o tenofovir presentó mejores resultados clínicos. Los menores cocientes costo-efectividad fueron de entecavir para pacientes HBeAg-positivo (R.010,84/AVG) y lamivudina para pacientes HBeAg-negativo (R.205,08/AVG).Para pacientes HBeAg-negativo, el cociente costo-efectividad incrementado de entecavir (R.101,05/AVG) está por debajo del límite recomendado por la Organización Mundial de la Salud. El análisis de sensibilidad mostró que la variación en los costos de los medicamentos puede tornar tenofovir una alternativa costo-efectiva tanto para pacientes HBeAg-positivo como para los HBeAg-negativo.

CONCLUSIONES

Entecavir es una alternativa recomendada para iniciar el tratamiento de pacientes con hepatitis B crónica en Brasil. Sin embargo, al haber reducción en el costo de tenofovir, éste puede convertirse en una alternativa más costo-efectiva.

Hepatitis B Crónica, quimioterapia; Antivirales, provisión & distribución; Avaliación de Costo-Efectividad; Sistema Único de Salud, economía


INTRODUÇÃO

A hepatite B crônica (HBC) é uma doença de alta prevalência, sendo estimados 350 milhões de casos em todo o mundo. 1313 . Ganem D, Prince AM. Hepatitis B virus infection: natural history and clinical consequences. N Engl J Med . 2004;350(11):1118-29. DOI:10.1056/NEJMra031087
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De acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) para o período entre 1999 e 2010, foram confirmados 104.454 casos da doença no Brasil. Somente em 2009 foram 14.468 casos confirmados, proporcionando taxa de detecção de 7,6 a cada 100.000 habitantes. aaMinistério da Saúde. Bol Epidemiol Hepatites Virais. 2011;2(1):5-76. [citado 2011 set]. Disponível em: http://www.aids.gov.br/publicacao/2011/boletim_epidemiologico_hepatites_virais_2011 Pacientes com HBC podem desenvolver doença hepática progressiva, que pode resultar em cirrose e carcinoma hepatocelular. Esses estágios da doença estão associados a risco aumentado de morbidade e mortalidade, além de implicarem consideráveis gastos em saúde. 2121 . Lok AS, McMahon BJ. Chronic hepatitis B. Hepatology . 2007;45(2):507-39. DOI:10.1002/hep.21513
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A HBC é causada pelo vírus da hepatite B (VHB) e o diagnóstico é confirmado se o paciente apresentar antígeno de superfície da hepatite B viral (HBsAg) por pelo menos seis meses, bem como o aumento das enzimas hepáticas e achados histológicos. Esses pacientes podem ser subdivididos, com base na presença do antígeno “e” da hepatite B (HBeAg) no soro, em HBeAg-positivo ou HBeAg-negativo. Esses grupos diferem em relação à história natural e resposta à terapia antiviral, sendo os pacientes HBeAg-negativo frequentemente associados a piores prognóstico e resposta ao tratamento. 2525 . Milich D, Liang TJ. Exploring the biological basis of hepatitis B e antigen in hepatitis B virus infection. Hepatology . 2003;38(5):1075-86. DOI:10.1053/jhep.2003.50453
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O tratamento da HBC objetiva atingir supressão sustentada da replicação do VHB, remissão de doença hepática, evitar o desenvolvimento de cirrose, insuficiência hepática ou carcinoma hepatocelular. Em pacientes HBeAg-positivo, a soroconversão durável de HBeAg para anti-HBe é um importante marcador, associado a melhores prognósticos. 1111 . European Association for the Study of the Liver. EASL clinical practice guidelines: management of chronic hepatitis B. J Hepatol . 2009;50(2):227-42. DOI:10.1016/j.jhep.2008.10.001
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No Brasil, até 2009, interferon e lamivudina eram os únicos tratamentos padronizados para HBC no Sistema Único de Saúde (SUS). Os medicamentos adefovir dipivoxil, entecavir, interferon peguilado e tenofovir foram, então, incorporados às diretrizes terapêuticas dessa doença. Estabeleceram-se como primeira escolha de tratamento o interferon para os pacientes HBeAg-positivo e o tenofovir para os HBeAg-negativo. bbMinistério da Saúde. Portaria nº 2.561, de 28 de outubro de 2009. Aprova Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas - Hepatite Viral Crônica B e Coinfecções. Diario Oficial da Uniao , Brasília, DF, 3 nov. 2009. Seção 1, p.59-71. Esses seis medicamentos fazem parte do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF) e são disponibilizados aos cidadãos por meio da Política Nacional de Assistência Farmacêutica, do Ministério da Saúde. ccMinistério da Saúde. Portaria nº 2.981, de 26 de novembro de 2009. Aprova o Componente Especializado da Assistência Farmacêutica.Diario Oficial da Uniao, Brasília, DF, 30 nov. 2009. Seção 1, p.725-771

Os gastos com financiamento de medicamentos do CEAF têm demonstrado tendência ininterrupta de crescimento no SUS, variando de R$ 685 milhões em 2000 (R$ 4,01 per capita ) para R$ 1,41 bilhões em 2007 (R$ 7,40 per capita ). 2. Carias CM, Vieira FS, Giordano CV, Zucchi P. Exceptional circumstance drug dispensing: history and expenditures of the Brazilian Ministry of Health. Rev Saude Publica . 2011;45(2):233-40. DOI:10.1590/S0034-89102011000200001
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, ddTaxa de câmbio em 29/12/2011: US$1,00 = R$1,87. Considerada para conversão dos valores monetários no estudo. Essa situação gera a necessidade de otimização dos recursos financeiros destinados à saúde.

São escassas as evidências enfocando a utilização de tenofovir para o contexto brasileiro. Para reiterar ou rejeitar as opções estabelecidas nas diretrizes terapêuticas, torna-se importante a realização de estudos para melhor compreensão do impacto econômico e dos resultados obtidos para a saúde pública.

O presente estudo teve por objetivo avaliar o custo-efetividade de diferentes tratamentos medicamentosos para hepatite B crônica entre pacientes adultos.

MÉTODOS

Por meio de modelo de Markov, 2929 . Sonnenberg FA, Beck JR. Markov models in medical decision making: a practical guide. Med Decis Making . 1993;13(4):322-38. utilizando o programa Tree Age Pro Suite 2009 ( Tree Age Software, Inc ), constituiu-se uma coorte hipotética para pacientes HBeAg positivo e outra para pacientes HBeAg negativo. Ambas compreenderam quatro grupos, cada um relativo ao uso de adefovir dipivoxil (ADV), entecavir (ETV), lamivudina (LAM) ou tenofovir (TDF). Foram considerados tratamentos de pacientes adultos com hepatite B crônica, virgens de tratamento, com elevados níveis de alanina aminotransferase, sem evidência de cirrose e sem coinfecção por HIV. O modelo compreendeu horizonte temporal de 40 anos. Como medida de efetividade, consideraram-se os anos de vida ganhos (AVG) por paciente tratado. Somente custos diretos foram considerados, sendo estes expressos em moeda brasileira (R$). A perspectiva de análise adotada foi a do SUS, ou seja, a avaliação dos resultados de custo-efetividade dos tratamentos foi feita considerando os custos diretos do tratamento.

O modelo foi composto por sete estados de transição, mutuamente exclusivos, que corresponderam aos seis estágios possíveis decorrentes da doença (HBC sem complicações, eficácia do tratamento, cirrose compensada, cirrose descompensada, carcinoma hepatocelular e óbito) e a resistência do VHB ao respectivo medicamento. Para pacientes HBeAg positivo, considerou-se a soroconversão HBeAg/Anti-HBe como desfecho de eficácia. Para pacientes HBeAg negativo, o desfecho analisado foi a indetecção de DNA do VHB no soro (< 400 cópias/mL).

Cada ciclo do modelo correspondeu a um ano de tratamento. No primeiro ciclo, a população foi composta por indivíduos com HBC, sem complicações da doença ou resistência ao medicamento. A transição do primeiro para o segundo ciclo, e sucessivamente, ocorreu de acordo com as probabilidades de transição entre cada estado. Para pacientes que apresentaram resistência viral ao tratamento inicial, foi modelado tratamento de resgate representando a inserção de outro análogo de nucleos(t)ídeo à terapia. As probabilidades de transição foram compostas por dados de progressão da doença ( Tabela 1 ) e de eficácia dos medicamentos ( Tabela 2 ) obtidos, respectivamente, de estudos clínicos aleatorizados e de estudos sobre a história natural da HBC.

Tabela 1
Taxas anuais de progressão da doença.

Tabela 2
Probabilidades anuais relacionadas aos tratamentos usados no modelo.

A literatura sobre a história natural da doença, eficácia e efetividade de seus tratamentos é escassa. Os medicamentos estudados nesta avaliação econômica são de recente aprovação pelas agências reguladoras. Dessa forma, a seleção dos estudos foi feita arbitrariamente, com base em avaliações econômicas, protocolos clínicos (como EASL e AASLD) e ensaios clínicos publicados.

A modelagem foi realizada considerando algumas premissas, a saber: pacientes sem resposta ao tratamento continuaram recebendo a medicação por todo o período da coorte caso não desenvolvessem resistência; tratamento de resgate foi inserido aos pacientes que desenvolveram resistência aos tratamentos iniciais; não se considerou surgimento de resistência ao tratamento de resgate; pacientes em diferentes estágios da doença seguiram a história natural da HBC.

Os valores monetários das terapias medicamentosas consideradas no estudo foram os determinados pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos para o ano 2011, considerando os preços de fábrica sem ICMS, já descontado o Coeficiente de Adequação de Preços de 24,38%. eeCâmara de Regulação do Mercado de Medicamentos. Resolução nº 3, de 2 de março de 2011.Diario Oficial da Uniao, Brasília, DF, 9 mar. 2011. Seção 1, p.3

Os gastos anuais por paciente, de acordo com os estágios da doença, foram obtidos de um estudo que avaliou os custos diretos da HBC em 2005, no Brasil. 3. Castelo A, Pessôa MG, Barreto TCBB, Alves MRD, Araújo DV. Estimativas de custo da hepatite crônica B no Sistema Único de Saúde brasileiro em 2005. Rev Assoc Med Bras . 2007;53(6):486-91. DOI:10.1590/S0104-42302007000600013
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Os valores foram corrigidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o ano de 2011. Os custos incluíram honorários médicos, exames laboratoriais, procedimentos diagnósticos e terapêuticos, internações hospitalares e gastos com medicamentos não antivirais. Os valores estimados foram extraídos predominantemente a partir de tabelas de pagamento do SUS.

Em avaliações econômicas de tecnologias em saúde, é recomendado o uso de taxa de desconto no custo e na efetividade. Considerando que frequentemente existe diferença no tempo entre o investimento de recursos do serviço de saúde e o benefício em saúde a ele associado, foi utilizada a taxa arbitrária de 5% para custos e efeitos, recomendada pelo Ministério da Saúde, quando o universo temporal de análise era superior a um ano. ffAbbot T. Custo em saúde, qualidade e desfechos. São Paulo: ISPOR Brasil; 2009. Também foram realizadas análises considerando descontos de 0% e 10% para custos e efeitos, de forma a avaliar em que extensão a seleção arbitrária da taxa afetou a conclusão do estudo. ggMinistério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Departamento de Ciência e Tecnologia. Diretrizes metodológicas: estudos de avaliação econômica de tecnologias em saúde. Brasília (DF); 2009. (Série A. Normas e Manuais Técnicos)

Ao final da coorte hipotética, para cada grupo foram obtidos dados sobre a expectativa média de vida dos pacientes e a proporção dos pacientes em cada estágio da doença. Calcularam-se as médias de custo e efetividade, de acordo com a intervenção. Para cada intervenção, foi calculada a razão custo-efetividade (RCE), que determina o valor médio gasto para cada AVG. Para a comparação entre as alternativas, calculou-se a razão custo-efetividade incremental (RCEI), que é a razão entre as diferenças de custo médio de duas alternativas terapêuticas e as respectivas diferenças de AVG. A RCEI representa, em relação a uma alternativa de RCE menor, o incremento de recursos financeiros necessário para a obtenção de um AVG adicional. Uma intervenção foi considerada custo-efetiva se o valor de RCEI foi inferior a R$ 57.048,00, ddTaxa de câmbio em 29/12/2011: US$1,00 = R$1,87. Considerada para conversão dos valores monetários no estudo. equivalente ao triplo do Produto Interno Bruto (PIB) per capita brasileiro em 2011, adaptado conforme orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS). hhWorld Health Organization. Cost-effectiveness thresholds. Geneva; 2005 [cited 2011 Nov 3]. Available from: http://www.who.int/choice/costs/CER_thresholds/en/index.htmlcosts/CER_thresholds/en/index.html.

Conduziu-se análise de sensibilidade univariada para a avaliação das incertezas do modelo e dos valores assumidos devido à escassez de dados na literatura. Para tal, as probabilidades de transição e os custos foram variados entre 10% menos e 10% mais.

RESULTADOS

Ao final da coorte, os tratamentos iniciados com ETV e TDF apresentaram maiores proporções de pacientes com desfecho de eficácia. Respectivamente, 44,0% e 44,3% dos pacientes HBeAg-positivo obtiveram soroconversão HBeAg. Para os pacientes HBeAg-negativo, 17,7% do grupo tratado inicialmente com ETV e 18,3% dos inicialmente tratados com TDF tiveram níveis indetectáveis de DNA do VHB ( Tabela 3 ).

Tabela 3
Proporções de pacientes em cada estado da doença ao final da coorte, de acordo com tratamento.

Os mesmos tratamentos foram mais protetores em relação às complicações da doença. Para o grupo inicialmente tratado com ETV, 44,1% dos pacientes HBeAg-positivo e 18,2% dos HBeAg-negativo não evoluíram para CC, CD, CHC, óbito ou resistência viral ao tratamento. Considerando o grupo inicialmente tratado com TDF, 44,4% dos pacientes HBeAg-positivo e 19,0% dos HBeAg-negativo não evoluíram para tais complicações.

O tratamento com ADV proporcionou os maiores custos e os piores resultados. Essa alternativa foi, portanto, dominada pelas demais estratégias. Considerando desconto de 5% nos custos e efeitos, para pacientes HBeAg-positivo o tratamento com LAM também foi dominado por ETV e TDF. Nesses pacientes, observou-se menor RCE para ETV (R$ 4.010,84/AVG) em relação ao TDF (R$ 4.140,57/AVG). A RCEI de TDF em relação ao ETV (R$ 162.735,04/AVG) foi maior que o triplo do PIB per capita brasileiro. Para pacientes HBeAg-negativo, o tratamento com LAM proporcionou o menor RCE (R$ 6.205,08/AVG), seguido de ETV (R$ 6.532,04/AVG) e TDF (R$ 6.651,64/AVG). A RCEI de ETV em relação à LAM (R$ 18.065,14/AVG) foi menor que o PIB per capita do Brasil. Comparado ao ETV, TDF apresentou RCEI de R$ 71.956,13 por AVG, que é maior que o limiar sugerido pela OMS ( Tabela 4 ).

Tabela 4
Resultados de custo-efetividade considerando desconto de 5% nos custos e efeitos.

Analisando cenário sem aplicação de descontos, para pacientes HBeAg-positivo a RCE de ETV (R$ 3.141,17/AVG) foi menor em relação à do TDF (R$ 3.219,87/AVG). A RCEI de TDF em relação ao ETV foi de R$ 52.966,58 por AVG. Para pacientes HBeAg-negativo, o tratamento com LAM foi dominado por ETV e TDF. A RCE de ETV (R$ 5.894,36/AVG) foi menor em relação à do TDF (R$ 6.079,00/AVG). A RCEI de TDF em relação ao ETV foi de R$ 81.081,06 por AVG.

Considerando cenário com desconto de 10% nos custos e efeitos, para pacientes HBeAg-positivo a RCE foi de R$ 4.665,08/AVG e R$ 4.838,21/AVG para ETV e TDF, respectivamente. A RCEI de TDF em relação ao ETV foi de R$ 433.119,83 por AVG. Para pacientes HBeAg-negativo, a menor RCE foi para o tratamento com LAM (R$ 5.999,10/AVG), seguido de ETV (R$ 6.701,40/AVG) e TDF (R$ 6.953,76/AVG). A RCEI de ETV em relação a LAM foi de R$ 55.668,84 por AVG. Considerando TDF em relação ao ETV, a RCEI foi de R$ 354.997,16 por AVG.

De acordo com a análise de sensibilidade, para pacientes HBeAg-positivo a variação dos custos dos antivirais ao longo da coorte pode tornar a RCEI menor que o limiar sugerido pela OMS. Para pacientes HBeAg-negativo, a variação dos custos dos antivirais, tanto no primeiro ano quanto nos subsequentes, também pode tornar menor que o triplo do PIB per capita brasileiro a RCEI de TDF em relação ao ETV. A alteração das variáveis consideradas no modelo para pacientes HBeAg-negativo não faz com que a RCEI de ETV em relação à LAM seja maior que três vezes o PIB per capita do Brasil ( Figura ).

Figura 1
Análise de sensibilidade univariada entre as estratégias de tratamento não dominadas. A) TDF versus ETV, HBeAg-positivo; B) ETV versus LAM, HBeAg-negativo; C) TDF versus LAM, HBeAg-negativo; D) TDF versus ETV, HBeAg-negativo.

DISCUSSÃO

Considerando as evidências clínicas utilizadas e o custo definido pela CMED para os análogos de nucleos(t)ídeos, iniciar o tratamento com ETV é a alternativa mais custo-efetiva para o tratamento da HBC em pacientes HBeAg-positivo e é custo-efetiva, comparado à LAM, para pacientes HBeAg-negativo.

Em pacientes HBeAg-positivo, iniciar o tratamento com LAM proporciona maiores custos e menores valores de AVG em relação a ETV e TDF, caracterizando-se uma alternativa dominada. Para ambos os subtipos da doença, iniciar o tratamento com ADV também é uma alternativa dominada por ETV e TDF. Essas alternativas dominadas não são recomendadas para iniciar o tratamento.

A RCE de ETV foi a menor em relação às dos demais tratamentos para pacientes HBeAg-positivo, definindo um custo de R$ 4.010,84 para cada AVG. Considerando o tratamento com TDF, seria necessário investimento incremental de R$ 162.735,04 por AVG adicional. Apesar de este valor ser maior que o limiar estabelecido pela OMS, a análise de sensibilidade indica que essa situação pode se reverter de acordo com a redução do custo desse medicamento ou com o aumento do custo de ETV. Considerando essas variações de custo, o tratamento inicial com TDF também pode ser considerado a alternativa mais custo-efetiva.

Em pacientes HBeAg-negativo, a menor RCE foi a do tratamento iniciado com LAM. Para alcançar um AVG a mais com ETV em relação ao tratamento com LAM, é necessário investimento incremental de R$ 18.065,14. Esse valor é menor que o limiar sugerido pela OMS, de três vezes o PIB per capita nacional, que caracteriza o ETV como alternativa custo-efetiva. Com relação ao tratamento iniciado com TDF, seriam necessários investimentos incrementais de R$ 21.421,93 e R$ 71.956,13 para cada AVG em relação, respectivamente, ao tratamento com LAM e ETV. A análise de sensibilidade mostra que, considerando variações nos custos de ETV e TDF, este também pode se apresentar como alternativa custo-efetiva.

Com ligeira superioridade em relação ao ETV, o modelo indica que o tratamento inicial com TDF proporciona melhores resultados clínicos em relação aos demais tratamentos. Com esse tratamento, observaram-se maior probabilidade de obtenção do desfecho de eficácia e menor probabilidade de progressão para complicações da HBC.

Modelos econômicos são simplificações da realidade. A complexidade multifatorial do tratamento de uma enfermidade não será, dessa forma, totalmente abordada. As análises econômicas fornecem subsídios para as decisões dos atores responsáveis pela coordenação dos programas e serviços de saúde. Essas decisões devem ter em conta os fatores e premissas considerados no modelo, bem como os não modelados. Dessa forma, algumas limitações podem ser identificadas neste estudo, como obtenção de valores de custo por fontes secundárias, dados de eficácia e efetividade obtidos de estudos sobre populações internacionais, seleção arbitrária de estudos para a composição do modelo e extrapolação de dados clínicos, taxas de resistência e terapia de resgate.

A perspectiva adotada para a análise de custo-efetividade foi a do sistema público de saúde brasileiro. Contudo, os dados de custos considerados não foram obtidos a partir de bases de dados nacionais, como o Sistema de Informações Ambulatoriais. Outra limitação do presente estudo refere-se aos dados de eficácia e de progressão da doença, que foram extraídos de estudos cujas populações não compreendiam pacientes brasileiros. Esses dados foram utilizados devido à escassez de estudos clínicos dessa doença no contexto nacional. Também são escassos estudos clínicos prospectivos para a HBC, devido à necessidade de longo período de acompanhamento. Dessa forma, os dados clínicos de resposta ao tratamento foram extrapolados ao final da coorte hipotética.

São escassas as estimativas de efetividade para terapias de resgate após um ano de tratamento. Portanto, a avaliação dos dados obtidos para substituição de alguma alternativa terapêutica devido à resistência viral deve ser abordada com cautela.

Análises de custo-utilidade sob a perspectiva de serviços de saúde de outros países apontaram TDF como alternativa mais custo-efetiva em relação a ETV e LAM. Um estudo adotando a perspectiva espanhola apontou o tratamento com TDF responsável por maior expectativa de vida e menores custos em relação aos demais tratamentos. 1. Buti M, Brosa M, Casado MA, Rueda M, Esteban R. Modeling the cost-effectiveness of different oral antiviral therapies in patients with chronic hepatitis B. J Hepatol . 2009;51(4):640-6. DOI:10.1016/j.jhep.2009.04.013.
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Estudo realizado sob a perspectiva do serviço nacional de saúde italiano concluiu que TDF é a alternativa mais custo-efetiva. 6. Colombo GL, Gaeta GB, Viganò M, Di Matteo S. A cost-effectiveness analysis of different therapies in patients with chronic hepatitis B in Italy. Clinicoecon Outcomes Res . 2011;3:37-46. DOI:10.2147/CEOR.S16655
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Em ambos os estudos, o custo anual desse medicamento foi menor em relação aos demais análogos de nucleos(t)ídeos, variando de 66,6% a 73,2% do custo anual de ETV. No Brasil, de acordo com os valores estabelecidos pela CMED, o custo anual de TDF equivale a 107,9% do custo de ETV. Em consonância com os resultados do presente estudo, análise de custo-efetividade comparando ETV e LAM sob a perspectiva do sistema público de saúde brasileiro concluiu que o tratamento com ETV é a alternativa mais custo-efetiva. 7. Costa AM, L’Italien G, Nita ME, Araujo ES. Cost-effectiveness of entecavir versus lamivudine for the suppression of viral replication in chronic hepatitis B patients in Brazil. Braz J Infect Dis . 2008;12(5):368-73. DOI:10.1590/S1413-86702008000500005
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A análise de sensibilidade possibilitou avaliar as incertezas numa variação de 10% em torno de cada valor utilizado, o que permitiu considerações sobre a robustez dos resultados do estudo em relação aos pressupostos adotados. Foi possível definir que a RCEI é mais sensível às variações no custo dos medicamentos. Considerando a variação proposta, observamos cenários nos quais ETV e TDF podem ser considerados custo-efetivos e com RCEI abaixo do limiar recomendado para incorporação de tecnologias no Brasil.

Considerando a produção científica atualmente disponível, a avaliação reitera a incorporação e priorização de ETV e TDF no rol de análogos de nucleos(t)ídeos do protocolo clínico e diretrizes terapêuticas da HBC. Algumas iniciativas podem ser importantes na redução do preço desses medicamentos. Uma delas pode ser o incentivo à utilização dos laboratórios oficiais na produção de medicamentos com custos reduzidos em relação ao mercado privado. Isso pode permitir que o tratamento com TDF, que apresentou melhores resultados clínicos, também se comporte com melhores resultados de custo-efetividade em relação ao ETV. Essa ação proporcionaria melhor tratamento à população afetada pela HBC.

Dentre os antivirais considerados, ETV e TDF apresentaram os melhores resultados clínicos. Para pacientes HBeAg-positivo, são as alternativas mais custo-efetivas. Para pacientes HBeAg-negativo, mostram custo-efetividade aceitável para serem utilizadas no Brasil. Dessa forma, considerando a perspectiva do SUS e os dados do modelo, a utilização de ETV e TDF são alternativas recomendadas para iniciar o tratamento de HBC em pacientes adultos e sem coinfecção por HIV. Para o reforço desse achado, são necessários mais estudos clínicos – principalmente em população brasileira – e estudos de impacto orçamentário.

REFERÊNCIAS

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    Carias CM, Vieira FS, Giordano CV, Zucchi P. Exceptional circumstance drug dispensing: history and expenditures of the Brazilian Ministry of Health. Rev Saude Publica . 2011;45(2):233-40. DOI:10.1590/S0034-89102011000200001
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Ago 2013

Histórico

  • Recebido
    30 Ago 2012
  • Aceito
    25 Abr 2013
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revsp@org.usp.br