EDITORIAL ESPECIAL

 

Na velocidade do mundo: migrações e mudanças sociais

 

 

Maria da Penha Vasconcellos

Docente dos Programas de Pós-Graduação em Saúde Publica e Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da USPSP/USP

 

 

Questões e razões para ocorrerem as migrações existem de longa data e não são propriamente um tema novo para o campo de investigação das ciências humanas e sociais. A própria natureza desse fenômeno, significativamente sempre em transformação, torna-se importante campo de estudos que buscam compreender suas dinâmicas e tensões, as condições sociais, políticas, religiosas, afetivas, econômicas e ambientais determinantes de adversidades ou oportunidades que levem aos deslocamentos humanos.

Assim, analisar este fenômeno requer situá-lo em seu contexto de emergência social e numa determinada temporalidade histórica, evitando-se ênfase em estereótipos, definições conceituais ou generalizações sobre esses movimentos sociais.

A caracterização das dinâmicas que provocam as migrações exige pesquisas constantes e conhecimento aprofundado sobre as razões que levam pessoas, seja individual, familiar ou ainda grupalmente, a vivenciar um "outro" modo de estruturarem suas vidas, na perspectiva de alcançar, nesse novo contexto, ressignificações referentes : a imagens de si em interação com o outro; a traços e relações interculturais; à constituição de novas identidades situacionais e relacionais negociadas entre o residual que vem com sua biografia com os demais; à assimilação de novos ritos, normas e valores. A diversidade advinda - classe social, etnias, idade, gênero, posições políticas e de associativismos, histórias familiares, modos de enfrentamento de sofrimentos pessoais e coletivos, entre outras, compõe um quadro complexo sobre pessoas que vivem "circunstâncias migratórias", seja como imigrante ou emigrante.

A constatação da complexidade relacionada às circunstâncias e razões de quem as vive, enfatiza a necessidade de evitar-se reduzir tal complexidade à leitura biomédica das condições de saúde e adoecimentos, da assistência e organização de serviços voltados aos migrantes ou deslocados temporários. Os possíveis sofrimentos advindos dessas circunstâncias requerem leituras que levem em considerarão outras dimensões e fatores relacionados, que interferem nos processos de adoecimento para além das praticas normativas e padronizadas usualmente encontradas na "gestão dos problemas de saúde".

O tema deslocamento humano, migrações de pessoas e problemas de saúde foi escolhido neste número da revista Saúde e Sociedade para dar destaque às investigações feitas, no contexto da globalização, sobre este assunto que faz parte da historia social da humanidade, mas que, no contemporâneo, ganha novos contornos e visibilidade.

Os artigos selecionados dão visibilidade às investigações voltadas aos migrantes, em particular no que se refere aos serviços de saúde. Eles também trazem questões sobre como esses serviços estão despreparados para lidar, sociologicamente e antropologicamente, com as emoções e subjetividade daqueles que buscam assistência e, sobretudo, serviços no domínio de apoio social.

Dois artigos tratam de situações de imigração em Portugal e Espanha. O trabalho "Saúde e bem-estar dos adolescentes imigrantes em Espanha e Portugal: Um estudo comparativo" enfoca a percepção dos adolescentes filhos de imigrantes em Huelva (Espanha) e no Algarve (Portugal) sobre a sua saúde, bem-estar e fatores de bem-estar e adaptação psicológica. "Imigração e Saúde: A (in)acessibilidade das mulheres imigrantes aos cuidados de saúde" procura traçar os diferentes perfis sociais das mulheres imigrantes em Portugal e a utilização dos serviços de saúde, refletindo sobre os determinantes que condicionam sua (in)acessibilidade. As autoras Topa, Neves e Nogueira enfatizam a necessidade de pensar para além dos serviços de saúde ao colocarem em evidência uma tendência importante a ser analisada: a feminização das migrações.

Os resultados de duas outras pesquisas referem-se à proteção social e condições de saúde de imigrantes nos Estados Unidos da América. O artigo "Indicadores de gobernanza para el desarrollo de estrategias binacionales de protección social en la salud de los migrantes" tem como principal objetivo identificar atores chave, seus papéis e os espaços de interação para o desenvolvimento da proteção social dos imigrantes "indocumentados" nos Estados Unidos da América. Já a pesquisa "O acesso aos serviços de saúde por emigrantes brasileiros nos Estados Unidos" explorou as necessidades, o acesso e a utilização dos serviços de saúde americanos pelos emigrantes de Governador Valadares, estudando a viabilidade do acesso e da utilização dos serviços de saúde subsidiados pelos governos federal e estaduais e de organizações não-governamentais.

As condições de imigrantes bolivianos em países da América do Sul constituem tema de dois artigos. "Desigualdad social, condiciones de acceso a la salud pública y procesos de atención en inmigrantes bolivianos de Buenos Aires y São Paulo: una indagación comparativa" trata de compreender processos de trabalho e de integração social relacionados ao estado de saúde de imigrantes bolivianos em Buenos Aires e São Paulo. A pesquisa "Acesso dos imigrantes bolivianos aos serviços de saúde públicos na cidade de São Paulo" analisa a satisfação sobre o acesso à saúde de imigrantes bolivianos na cidade de São Paulo, comparando à de brasileiros.

Ademais, é apresentado "Religiosidade e rede de apoio social na vida das mulheres brasileiras e suas famílias no Japão", cujo objetivo é explorar o impacto e o sentido da religiosidade na vida de mulheres brasileiras migrantes e de suas famílias no Japão. O texto mostra que a situação de alienação social pode levar ao aparecimento das "perturbações físico-morais", impelindo as brasileiras a buscarem ajuda nos grupos religiosos. A autora Matsue aborda pela religiosidade e espiritualidade um aspecto importante que possibilita entender práticas de diferenciação e identificação do grupo estudado, a permanência residual da cultura religiosa como proteção mental.

Os artigos apresentam mais do que resultados de pesquisas. Eles nos levam a refletir sobre os processos de deslocamento humano e migrações, que por si só constituem complexidades que envolvem circunstâncias e valores materiais, assistenciais e simbólicos. Os deslocamentos humanos, marcados pela diferenciação e identificação, permeados pelas emoções, entre movimentos de resistência e fragilidades, busca de oportunidades e projetos de vida, prosseguem como movimentos de reconhecimento e direitos socioculturais na direção de uma compensação frente a emergências sociais na vida cotidiana, na segurança alimentar e sanitária, no acesso aos bens básicos e na fuga às intempéries climáticas.

Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. Associação Paulista de Saúde Pública. SP - Brazil
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