Novos andarilhos do bem: caminhos do Acompanhamento Terapêutico

Andrés Eduardo Aguirre Antúnez Sobre o autor
CHAUI-BERLINCK, L.. Novos andarilhos do bem: caminhos do Acompanhamento Terapêutico. 2012. Autêntica Editora, Belo Horizonte: 176. 8582170629.

A tese de Luciana Chaui-Berlinck, da qual nasce o livro Novos Andarilhos do Bem: caminhos do Acompanhamento Terapêutico, me lembra a letra da música Nos bailes da vida de Milton Nascimento: "Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão, todo artista tem de ir aonde o povo está". Parafraseando a mesma, o livro publicado mostra que ela mesma vai ao encontro dos Acompanhantes Terapêuticos (ATs) – e esses vão aonde os pacientes estão! – para nos apresentar facetas sui generis dessa modalidade de encontro terapêutico na prática- teórica do Acompanhamento Terapêutico (AT).

Como trabalho científico, utilizou procedimentos para analisar os discursos dos ATs, revelando como é a subjetivação do AT e o que é o AT na fala dos próprios ATs. Assim, é um trabalho que contribui para uma reflexão crítica dessa modalidade clínica e social de atendimento, ou melhor, modalidade de acompanhamento – acompanhar conversando, acompanhar no silêncio, acompanhar na espera, atento ao gesto e ao discurso.

O livro Novos andarilhos do bem traz em si novidade ao campo do AT, em seu peculiar caminhar que desvela o bem. No capítulo 1, Luciana mostra as vicissitudes do movimento antipsiquiátrico e a batalha antimanicomial como tendo sido o campo privilegiado no qual nasce o acompanhamento terapêutico. Esse capítulo auxilia o leitor a se localizar no espaço e no tempo, na história da contemporaneidade, não muito longínqua, do amigo qualificado ao acompanhante terapêutico. O capítulo 2 se refere a uma breve revisão de literatura sobre o AT, no qual a autora dá voz aos autores escolhidos para facilitar ao leitor o caminho investigativo que, naquele momento, realizou: uma prática em constituição, acompanhamento a pessoas com diagnósticos variados, proximidade com a orientação psicanalítica, inserção do AT como clínica-social, discussões sobre o uso de técnicas e da ética, circulação do AT e seu paciente, e caráter interdisciplinar.

O AT vai ao encontro do sofrimento do outro, que, ao ser encontrado, se transforma em seu sofrimento, já não é apenas do outro, está entre o acompanhado e o acompanhante, nessa terceira área – campo do bem. Luciana afirma que o AT busca despertar anseios, pois não é só falta o que vive o acompanhado, ele tem história, tem desejos e é capaz de exercer atividade criativa no mundo. O AT nos coloca face a face com a precariedade humana, com a solidão, de modo que uns ATs trabalham mais na perspectiva do fazer, outros do pensar e ainda há aqueles que têm como estilo o tocar.

A análise institucional do discurso proposta no capítulo 3 vai além de um estudo do discurso verbal e da estratégia de pensamento que organizou a princípio sua investigação; prepara terreno para contemplar o modo de dizer dos ATs, o discurso do corpo e do silêncio que esse capítulo não revela. Luciana elabora um trabalho baseado em roteiro de entrevista que indica seus interesses e sua intencionalidade. Para compreender o que faz um AT em um dia, e como o faz, bem como as marcas deixadas pelos encontros, o percurso profissional, as teorias que fundamentam o AT, com quem dialoga e como entende sua profissão, a autora elaborou questões que mostram a abertura e a curiosidade diante daqueles que agem nesse campo social, questões muito próximas àqueles que necessitam partilhar o pão (cum Panis).

Após esse caminho inicial entramos no "quarto do AT" no capítulo 4: o objetivo, o subjetivo e o AT. Aqui encontramos a essência do livro, o aposento mais belo do AT. O leitor visitará como o paciente é objetivado no discurso de alguns ATs, as influências das ideologias psiquiátricas e, para além delas, a demanda familiar, a resistência do paciente, como ele é subjetivado no discurso dos ATs: os lugares, os fazeres, os riscos, as potências, as dificuldades, as facilidades, o corpo, as diversas formações de origem dos ATs, o campo do AT nas falas dos próprios ATs, os encontros, as dificuldades, as vivências, o caráter terapêutico, o AT e a reforma psiquiátrica, as propostas e as metas.

Verificamos nesse livro que o AT precisa ter flexibilidade para transitar ao lado do outro – nem à frente, nem atrás, mas ao lado. Aonde o outro o levar, não só nas andanças pelas concretas ruas de nossa cidade, ou pela natureza de um parque, mas também nas andanças pelas ruas de nossa vida, de nossa natureza humana, no campo entre o si mesmo e o não-eu.

No livro, uma enfermeira conta uma experiência interessante. Trata-se do ato que um paciente tinha de se trancar em seu quarto. Para sua família isso era entendido como isolamento, mas para o paciente era um sinal positivo diante de possíveis invasões a que estava submetido, de modo que sua ação de isolamento era, no fundo, um sinal de proteção. O perigo é o AT reproduzir tais invasões. Assim, esse livro mostra que o trabalho do AT é de uma complexidade impressionante, muito além de um simples trabalho de apoio, suporte ou retaguarda em saúde mental. Tal trabalho tem que estar no trânsito entre o acompanhado e a sua família, entre os acompanhados e a equipe de saúde mental.

Uma terapeuta ocupacional acompanhou um paciente que queria cortar o cabelo, mas tinha medo que lhe cortassem a cabeça. Ao ser acompanhado, não entrou mais em desespero. Há formas de estar só, uma é aquela da solidão essencial e absoluta a que todos estamos sujeitos, mas, no campo do AT, estar só e bem acompanhado transforma a relação consigo e com o mundo.

A vulnerabilidade do AT não está apenas na indeterminação de técnicas que orientam o fazer e a tomada de decisão, mas na própria vulnerabilidade humana, da qual muitos não querem sequer se aproximar – face precária da vida em si, que o AT põe em cena para olharmos para nós mesmos revisitando o nosso modo de cuidar de alguém. Alguns se apoiarão excessivamente em teorias, outros em condutas irrefletidas, mas, mesmo nesses sustentos, a precariedade e vulnerabilidade humanas palpitam nas profundezas do sentido da existência da pessoa humana e são assim companhias da vida comunitária.

É comum o relato de que o AT está fora do campo das certezas absolutas, mas não é isso o que ocorre na vida mesma, tal como ela é? O AT facilita aproximações, passagens da solidão do desamparo e desespero para a solidão acompanhada e amparada. O AT nos convida a refletir o encontro com o inesperado, com as dificuldades, com a abertura para o inédito, com os dados de realidade e os fantasiosos, com a hesitação que paralisa por instantes ou de modo passageiro o seu fazer, pensar e sentir. Na pessoa acompanhada não raras vezes encontramos um tempo sem devir, um espaço sem contorno.

Não podemos negar que muitos ATs são jovens que se lançam na experiência, com ou sem medo de se confundir com o outro. Há aí uma diferenciação, podem não saber o que o outro sente, mas não podemos duvidar do que nós sentimos como AT no encontro com alguém. Sentimos com o paciente, pensamos com o paciente, porque acompanhamos um não-eu. O AT apreende a semelhança do outro, ao mesmo tempo em que percebe que são dois. O AT sabe dos riscos que existem em qualquer relação de acompanhamento, já que viver é correr riscos e, se há AT para viver os riscos da vida juntos, há uma possibilidade que se vislumbra na vida alheia e na do próprio AT.

Luciana afirma que os discursos nos apresentam o corpo como mediador contra o sofrimento psíquico. Por outro lado, se pensarmos que a vida é sofrimento, que sofrimento é vida, os seres humanos são a revelação da vida que nenhuma linguagem chegará a exprimir como de fato se vive o sentimento. Os ATs deflagram isso. A cada acompanhar o que nos transcende (a visita do inédito, do mistério, do inesperado e do incompreensível da vida), ocorre um auxílio e alimenta-se a tolerância necessária para encontros significativos. É inevitável que – mais cedo ou mais tarde – o potencial adormecido em cada pessoa comece a despertar, à espera de um segundo nascimento.

O trabalho de Luciana nos possibilita ir ao encontro dos ATs, acompanhá-los no que eles têm a nos dizer e a nos ensinar. Uma acompanhante terapêutica afirma que o AT consegue abrir um espaço dentro de nós, para proporcionar um encontro, encontro com a dor do paciente. Eu diria, encontro com a nossa própria dor. Só acompanha quem pode se encontrar consigo mesmo; quem não pode, ou ainda não se encontrou, poderá atender alguém, mas não o encontrará, seja em seu consultório seja na rua. Ao reconhecer e acompanhar o outro em sua dor, sentimos que ali está também a nossa dor; não sinto a dor que o paciente sente, mas sei o que é dor em seu aspecto universal. Assim posso como AT me aproximar do aspecto humano de alguém, talvez perdido, poucas vezes ou nunca encontrado.

A importância desse livro para o campo do AT é imensa, é difícil precisar ou mensurar o quão frutífero é àquele que tem humildade e sabedoria para se abrir ao diferente, ao outro, ao estranho. Luciana afirma que o AT não é apenas uma intervenção, mas é uma vivência cuja particularidade é viver com o outro, o que é do outro em si. Assim, é nosso esse vivenciar, o AT é uma forma de intervenção e hospitalidade.

Seu projeto de realizar uma tese de doutoramento dando vozes aos atores principais desse campo, teatro da vida real, discursos baseados em histórias reais, ampliou as possibilidades da produção de conhecimento em Ciências Humanas para além da Universidade – o livro alça voos imprevistos. A tese cresceu, se desenvolveu, se transformou em livro para ser lido, usado, grifado e citado. Que seja nossa companhia, que seja rabiscado, criticado, comentado e dialogado. Luciana dá voz aos ATs, sejam eles terapeutas ocupacionais, enfermeiros, psicólogos ou profissionais da saúde. Ela investiu muito, ao iluminar a riqueza da interdisciplinaridade, a riqueza e a complexidade do acompanhar humano.

Mas o que Luciana propõe não são apenas reflexões críticas e clínicas, mas reflexões políticas no campo da saúde mental. Bem amparada teoricamente na Psicanálise e na Filosofia, no campo psicopatológico e no campo psiquiátrico, na realidade do AT em nosso País, Luciana fomenta e estimula discussões que muitos não querem ter, não querem ver, talvez não queiram ouvir, mas quem sabe possam ler e reconhecer o valor humano e rigoroso que tais discussões trazem em sua essência. Seu trabalho resiste aos domínios ideológicos que procuram aviltar a dignidade humana, a criatividade e a reflexão crítica. Está mais próximo da comunidade humana do que de grupos movidos por narcisismos inseguros.

O capítulo 5 indica uma reflexão do caminho trilhado até este momento e toca nas transformações que o campo teve nas últimas décadas. Em seguida, mostra em suas conclusões a necessidade de uma rede social na dimensão subjetiva do AT e os contornos possíveis ou não da profissão ou da área.

Este livro é a prova de que as teses têm que sair da biblioteca universitária para chegar, de forma mais palpável e numa linguagem viva, à sociedade e à comunidade. É um dos cuidados que Luciana Chaui-Berlinck tem com os cuidadores e com aqueles que são cuidados, para além das fronteiras das regras e das normas institucionalizadas. Ela se preocupa com uma possível perda de liberdade neste campo, desde o privado ao público. Só quem foi e é muito bem acompanhada pela família e pela vida em si, como Luciana Chauí-Berlinck, pode nos oferecer um livro andarilho do bem na trilha do cuidado.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Oct-Dec 2014
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