Prevalência de depressão em idosos que freqüentam centros de convivência

 

 

Deise A A P OliveiraI; Lucy GomesII; Rodrigo F OliveiraIII

IInstituto de Pesquisa e Desenvolvimento. Universidade do Vale do Paraíba. São José dos Campos, SP, Brasil
IIUniversidade Católica de Brasília. Brasília, DF, Brasil
IIIFaculdade de Pindamonhangaba. Pindamonhangaba, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

O objetivo do estudo foi determinar a prevalência de depressão em idosos que freqüentam centros de convivência. Foi realizado estudo descritivo transversal, de fevereiro a julho de 2001, com idosos de idade igual ou acima de 60 anos, provenientes de centros de convivência de Taguatinga, Brasília, DF. A amostra foi composta de 118 idosos, que foram distribuídos em faixas etárias com intervalos de cinco anos e responderam à Escala de Depressão Geriátrica de Yesavage, versão simplificada com 15 perguntas. Foram realizadas análises de variância entre as faixas etárias, teste de Tukey, com intervalo de confiança de 95%. Houve predominância do sexo feminino (90%) e a maioria tinha entre 60 e 64 anos (31%). A depressão foi identificada em 36 idosos (31%), 4% apresentaram depressão grave, e desses, todos na faixa entre 60 e 64 anos (14% do grupo). Recomenda-se a criação de programas nacionais com o objetivo de diminuir sintomas depressivos entre os idosos em centros de convivência.

DESCRITORES: Saúde do idoso. Depressão, epidemiologia. Epidemiologia descritiva. Escalas de graduação psiquiátrica. Asilos para idosos. Idosos albergados.


 

 

INTRODUÇÃO

Estudos realizados em comunidades têm mostrado correlação positiva entre a idade (principalmente acima de 65 anos) e a presença de sintomas depressivos. Blazer & Williams3 encontraram sintomas depressivos em 14,7% dos idosos vivendo em comunidade. No Brasil, no Estado da Bahia, Aguiar & Dunningham1 relataram prevalência semelhante (15%) de sintomas depressivos em idosos na comunidade.

Veras & Murphy5 avaliaram a saúde mental de idosos (acima de 60 anos) em três distritos da cidade do Rio de Janeiro, com populações de diferentes níveis socioeconômicos (alto, médio e baixo poder aquisitivo). A percentagem de sintomatologia depressiva foi de 22,6%, 19,7% e 35,1%, naqueles com alto, médio e baixo poder aquisitivo, respectivamente. Esses resultados mostram prevalências mais elevadas do que as relatadas em estudos semelhantes, especialmente na população de baixo poder aquisitivo. Para esses autores, essa diferença foi devida às limitações do instrumento utilizado, mas também à escassez de serviços de auxílio destinados à população de idosos, comparada a dos países desenvolvidos (transporte adequado, serviços de assistência de enfermagem domésticos, serviços voluntários dedicados ao bem-estar, entre outros).

Depressão é a doença psiquiátrica mais comum entre os idosos, freqüentemente sem diagnóstico e sem tratamento. Ela afeta sua qualidade de vida, aumentando a carga econômica por seus custos diretos e indiretos e, pode levar a tendências suicidas. Os pacientes deprimidos mostram-se insatisfeitos com o que lhes é oferecido, havendo interrupção em seus estilos de vida, redução de seu nível socioeconômico quando ficam impossibilitados de trabalhar. Além disso, há privação interpessoal particularmente naqueles que se isolam em decorrência da depressão e, naturalmente, naqueles que encurtam suas expectativas de vida, seja por suicídio ou por doenças somáticas relacionadas à depressão.

A prevalência de depressão nos idosos é relevante na prática clínica, para que se possa intervir adequadamente assim como prevenir os fatores de risco.

O presente trabalho teve por objetivo determinar a prevalência de depressão em idosos que freqüentam centros de convivência.

 

MÉTODOS

Foram avaliados idosos com idade igual ou superior a 60 anos que freqüentavam cinco grupos de convivência de Taguatinga, cidade satélite de Brasília, Distrito Federal, no período de fevereiro a julho de 2001. Esses Grupos de Convivência de Idosos estavam cadastrados na Gerência de Atendimento ao Idoso (GAI) do Distrito Federal.

O plano para composição da amostra seguiu amostragem estratificada proporcional, definido pelo percentual de 21% com erro de 5%. Foram estudados 118 do total de 561 idosos registrados nos cinco grupos de convivência. Os idosos foram divididos em grupos etários com intervalos de cinco anos e esclarecidos quanto ao objetivo da pesquisa, obtendo-se seu consentimento informado livre e esclarecido.

O instrumento utilizado para o diagnóstico de transtorno depressivo, recomendada pela Organização Mundial de Saúde/CID-10, foi a Escala de Depressão Geriátrica de Yesavage, versão simplificada com 15 perguntas.2

A análise indutiva empregada foi a de variância, levando-se em conta as médias da pontuação desta variável dentro de cada faixa etária, em conjunto com o teste de Tukey, considerando o nível de significância de 95%.

 

RESULTADOS

Na amostra de 118 idosos houve predominância do sexo feminino, com 106 mulheres (90%). Quanto à idade , a maior freqüência dos idosos estava na faixa etária entre 60 e 64 anos (31%), o que correspondeu a 36 idosos.

De acordo com os resultados da pontuação da Escala de Depressão Geriátrica, observou-se que 31% (n=36) dos idosos tinham depressão, alcançando mais de cinco pontos no escore utilizado. Os 70% restantes não foram caracterizados como depressivos, tendo em vista que seu escore variou entre zero e cinco pontos. Entre os deprimidos, 26% foram caracterizados tendo depressão leve ou moderada (escore de 6 a 10 pontos) e 4% como portadores de depressão grave (escore de 11 pontos ou maior).

Observou-se depressão leve ou moderada em: 50% dos idosos com 80 anos ou mais, 29% daqueles entre 75 e 79 anos, 25% entre 70 e 74 anos, 22% entre 60 e 64 anos e 20% entre 65 e 69 anos. Todos os indivíduos que apresentaram depressão grave estavam na faixa de 60 a 64 anos, representando 14% dos idosos nesta faixa etária. Assim sendo, o total de idosos deprimidos de 60 a 64 anos foi de 36%.

Pela análise de variância, verificou-se que não houve diferenças significativas quanto à presença de depressão entre as faixas etárias estudadas.

 

DISCUSSÃO

A ocorrência de depressão é associada a fatores como idade, estado civil, classe social e condições sociais.4 É condição que afeta todos indivíduos em alguma fase de suas vidas, seja como humor transitório ao se sentir abatido ou melancólico, ou como uma forma mais séria, que pode prejudicar o desempenho físico e psicológico.

Os idosos, por dificuldade de inserção no mercado de trabalho, constituem parcela vulnerável da população potencialmente sujeita ao estado de pobreza. Características como produtividade e empregabilidade declinam com a idade a partir de um determinado momento, passando as pessoas a dependerem cada vez mais dos rendimentos dos demais moradores do domicílio para sobreviverem e manterem seu padrão de vida.3

Segundo Camarano,4 26,1% das mulheres idosas são pensionistas. Infere-se que, pelo menos parte da população idosa estudada no presente trabalho recebe aposentadoria do sistema previdenciário. Devido principalmente à menor participação da mulher na atividade econômica do passado, há uma menor proporção de mulheres aposentadas em relação aos homens e com rendimento médio inferior ao da população masculina. Esses resultados parecem retratar a situação de dependência em que se encontra uma parcela das mulheres idosas brasileiras. Tal dependência parece estar relacionada ao fato dessas mulheres não terem casado ou não fazerem parte do mercado de trabalho. Não obstante, ao mesmo tempo em que elas são mais dependentes, são as que fornecem maior apoio à família, seja na condição de mãe idosa para filhos e netos ou na de filha ajudando pais idosos. Isso reflete não só uma afetividade maior por parte das mulheres, mas também, a disseminação de valores tradicionais, segundo os quais a responsabilidade dos cuidados para com os pais e filhos recai primordialmente sobre a mulher.

Atualmente, a idade avançada é descrita como desprovida de força, incapaz de prazer, solitária e repleta de amargura. No passado, certas sociedades garantiam ao idoso o poder, a honra e o respeito. Entretanto, na sociedade moderna, consumista e imediatista, os idosos são encarados como um peso social, sempre recebendo benefício e nada oferecendo em troca. Os valores da juventude predominam como os de beleza, de energia e de ativismo.

Assim, conclui-se que às limitações naturais físicas são acrescidas àquelas colocadas pela sociedade, fruto de preconceitos e estereótipos sociais. Tais fatos podem explicar, em parte, a alta prevalência de depressão encontrada na presente pesquisa, que teve o público alvo constituído na maioria (90%) por mulheres.

Há necessidade que se criem programas nacionais nos centros de convivência de idosos, com o fim de promover: participações em movimentos assistenciais e sociais; aperfeiçoamento de conhecimentos por meio de cursos de extensão, especialização ou de reciclagem; e envolvimento com atividades culturais, desportivas e de lazer. Esses programas devem ser compatíveis com a disponibilidade e o interesse da população idosa envolvida, levando em consideração suas possibilidades e seus limites pessoais, levando à diminuição da sintomatologia depressiva neste grupo etário.

 

REFERÊNCIAS

1. Aguiar WM, Dunningham W. Depressão geriátrica: aspectos clínicos e terapêuticos. Arq Bras Med. 1993;67(Supl 4):291-310.        

2. Almeida OP, Almeida AS. Confiabilidade da versão brasileira da Escala de Depressão em Geriatria (GDS) versão reduzida. Arq Neuropsiquiatr. 1999;57(2B):421-6.        

3. Blazer DG, Williams CD. The epidemiology of dysphoria and depression in an elderly population. Am J Psychiatry. 1980;137:439-44.        

4. Camarano AA. Considerações finais. In: Camarano AA, organizador. Muito além dos 60: os novos idosos brasileiros. Rio de Janeiro: IPEA; 1999. p. 369-82.        

5. Veras RP, Murphy E. The mental health of older people in Rio de Janeiro. Int J Geriatr Psychiatry. 1994;9:285-95.        

 

 

Correspondência | Correspondence:
Deise A. Almeida Pires Oliveira
Rua Esperança, 265 apto 41 Vila Adyana
12243-700 São José dos Campos, SP, Brasil
E-mail: deisepyres@yahoo.com.br

Recebido: 7/3/2005
Revisado: 26/9/2005
Aprovado: 6/3/2006

 

 

Baseado em dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília, área Ciências da Saúde, em 2002.

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