ARTIGOS ORIGINAIS

 

Consumo de doces, refrigerantes e bebidas com adição de açúcar entre adolescentes da rede pública de ensino de Piracicaba, São Paulo

 

Consumption of sweets, soft drinks and sugar-added beverages among adolescents from public schools in Piracicaba, Sao Paulo

 

 

Marina Bueno do CarmoI; Natacha ToralII; Marina Vieira da SilvaIII; Betzabeth SlaterIV

IGraduanda do curso de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, bolsista de iniciação científica pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo 111929/2004-0
IINutricionista, especialista pela Universidade Federal de São Paulo, mestranda da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo
IIIProfessora doutora do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz / Universidade de São Paulo (ESALQ/USP)
IVProfessora doutora do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever as práticas alimentares de adolescentes quanto à ingestão energética, distribuição de macronutrientes na dieta e porções consumidas de doces, refrigerantes e bebidas com adição de açúcar.
METODOLOGIA: Foi avaliada uma amostra de adolescentes matriculados em escolas da rede pública de ensino de Piracicaba, São Paulo. O consumo alimentar foi avaliado por um Questionário de Freqüência Alimentar. Para a comparação do consumo com a recomendação de ingestão de energia e de macronutrientes, utilizaram-se as Dietary Reference Intakes. A análise do consumo de doces baseou-se nas recomendações do guia alimentar norte-americano. Dados de consumo de refrigerantes e bebidas com adição de açúcar foram avaliados em comparação com outros estudos.
RESULTADOS:
O estudo incluiu 390 adolescentes. Apenas 6,2% destes apresentaram consumo energético em conformidade com o intervalo preconizado e 83,8% revelaram ingestão energética acima dos valores propostos. Expressiva parcela apresentou consumo de carboidratos e proteínas de acordo com o recomendado, mas foi verificado consumo alto de lipídios em 36,7% da amostra. Comprovou-se um consumo médio de 3,8 porções diárias de doces, sendo que 78,2% dos entrevistados ultrapassaram a recomendação máxima. O consumo médio diário alcançou aproximadamente 230ml e 550ml de refrigerante e bebidas com adição de açúcar, respectivamente.
CONCLUSÃO: Devido à alarmante inadequação das práticas alimentares observadas entre os adolescentes, devem ser adotadas estratégias educativas que enfatizem a redução do consumo de açúcares e os benefícios da adoção de uma dieta equilibrada.

Palavras-chave: Adolescentes. Bebidas com adição de açúcar. Doces. Refrigerantes. Consumo alimentar.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To describe the dietary patterns of adolescents in relation to energy intake, distribution of macronutrients in diet and consumption of portions of sweets, soft drinks and sugar-added beverages.
METHODOLOGY: A sample of adolescents enrolled in public schools in Piracicaba, São Paulo, was evaluated. A Food Frequency Questionnaire evaluated dietary intake. The Dietary Reference Intakes was used to compare energy and macronutrient intake. The analysis of sweets intake was based on the recommendations of North-American guidelines. Information about intake of soft drinks and sugar-added beverages was evaluated and compared to previous studies.
RESULTS: The study included 390 adolescents. Only 6.2% of them complied with the recommended energy intake and 83.8% presented consumption above the estimated level. Most of the adolescents presented carbohydrate and protein intake between recommended levels, but 36.7% showed a high fat intake. Average intake of sweets was 3.8 portions a day and 78.2% of the adolescents interviewed exceeded the maximum recommended. The daily average intake reached approximately 230mL of soft drinks and 550mL of sugar-added beverages.
CONCLUSION: Due to the alarmingly inadequate dietary practices observed among adolescents, educational measures must be taken in order to emphasize the reduction in sugar intake and the benefits gained from following a balanced diet.

Keywords: Adolescents. Sugar added beverages. Sweets. Soft drinks. Dietary intake.


 

 

Introdução

A adolescência é um período da vida caracterizado por intensas mudanças biológicas, psicológicas e sociais que podem interferir no consumo alimentar deste grupo populacional1. A dieta de adolescentes caracteriza-se pela preferência de alimentos com elevado teor de gordura saturada, colesterol e substancial quantidade de sódio e carboidratos refinados, representados muitas vezes pela ingestão de batatas fritas, alimentos de origem animal fritos e bebidas com adição de açúcar2-4.

Estudos sobre a alimentação de grupos de adolescentes brasileiros indicam a ocorrência de inadequação alimentar com excesso de açúcares e gorduras5-7. Um aspecto relevante da dieta dos adolescentes é o consumo excessivo de doces e bebidas com adição de açúcar (incluindo refrigerantes). Segundo Fisberg et al.8, este é um problema comum no mundo todo.

Ao analisar a alimentação de adolescentes, Garcia et al.9 constataram um consumo elevado de bebidas gaseificadas e alimentos ricos em açúcar. Apesar da disponibilidade de alimentos saudáveis como lanche escolar, os adolescentes têm preferência por bolachas, batatas fritas, pizzas, refrigerantes e chocolates8.

Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostraram um aumento de 500% no consumo de refrigerantes nos últimos 50 anos. Os refrigerantes constituem a maior fonte de açúcar adicionado na dieta. Atualmente, metade dos americanos e a maioria dos adolescentes (65% das meninas e 74% dos meninos) consomem refrigerantes diariamente10.

Pesquisa implementada nos Estados Unidos, conduzida por Nielsen e Popkin11, analisou a tendência do consumo de bebidas (leite, suco de frutas, refrigerantes, bebidas à base de frutas, café, chá e bebidas alcoólicas) tendo por base o período entre 1977 e 2001. Os autores verificaram que houve um aumento na obtenção de energia proveniente de refrigerantes e bebidas à base de frutas.

A tendência apresentada no consumo de alimentos ricos em açúcares simples é motivo de preocupação tendo em vista os efeitos deletérios destes alimentos quando consumidos de forma desarmoniosa em relação ao conjunto da alimentação6. A ingestão energética excessiva pode ser proveniente do aumento da oferta de alimentos em grandes quantidades, podendo repercutir sobre o aumento da prevalência de excesso de peso12,13.

Da Veiga et al.14 observaram um aumento alarmante das taxas de excesso de peso em adolescentes brasileiros. Os autores compararam os dados do Estudo Nacional de Despesa Familiar (ENDEF), realizado em 1974-1975, e da Pesquisa sobre Padrões de Vida (PPV), de 1996-1997 e constataram que o excesso de peso praticamente triplicou entre os meninos (de 2,6% para 11,8%) e meninas nesse período (de 5,8% para 15,3%). Acredita-se que o aumento no número de porções consumidas possa ter contribuído para o aumento das taxas de obesidade também entre adolescentes, situação que é considerada como um dos principais problemas de saúde pública da atualidade em diversos países, inclusive no Brasil.

Assim, ressalta-se a importância de estudos sobre as práticas alimentares características desse estágio da vida, enfatizando o número de porções usualmente consumidas por esta população, a fim de se obter parâmetros da realidade atual. O objetivo deste estudo foi descrever as práticas alimentares de alunos adolescentes matriculados em escolas da rede pública da cidade de Piracicaba, São Paulo, em relação à ingestão energética, à distribuição de macronutrientes na dieta e ao número de porções consumidas de doces, refrigerantes e bebidas com adição de açúcar.

 

Metodologia

Trata-se de um estudo observacional de corte transversal, no qual foram incluídos adolescentes com idade mínima de 10 anos, de ambos os gêneros, matriculados em escolas da rede pública de ensino da cidade de Piracicaba. As entrevistas, realizadas durante o mês de novembro de 2004, foram conduzidas em espaço reservado em cada escola, durante a jornada de aula. Os participantes foram submetidos a entrevistas pessoais, conduzidas por pesquisadores treinados, com duração aproximada de 60 minutos. O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade de Saúde Pública.

Para o cálculo da amostra, foram consideradas as seguintes informações: prevalência de sobrepeso em população semelhante (15%); erro tipo I de 5% e de erro tipo II de 20%15.

O procedimento de amostragem foi do tipo aleatório simples, estratificado por séries (1ª a 4ª série e 5ª a 8ª série), sendo realizado em duas etapas. Na primeira etapa, as unidades primárias de amostragem (UPA), que correspondem às escolas do município, foram ordenadas segundo as regiões. Foram sorteadas 11 escolas, considerando que dez estavam localizadas em zonas urbanas e uma em zona rural.

Na segunda etapa da amostragem, foram ordenadas as unidades secundárias de amostragem, que correspondem às classes (séries) das escolas. Em cada UPA, as classes foram novamente sorteadas por amostragem aleatória simples. Em cada classe selecionada, realizou-se um sorteio de determinado número de alunos, dependendo do porte da escola.

Considerando que seria esperado identificar os alunos com idade mínima de 10 anos a partir da 4ª série, deveriam ser sorteados 130 alunos de 4ª série, 86 de 5ª série, 78 de 6ª série, 84 de 7ª série e 42 de 8ª série, totalizando uma amostra estimada de 420 alunos.

Foi realizado um estudo-piloto que possibilitou adaptações no formato do questionário, de modo a favorecer a compreensão das perguntas e maior agilidade na realização da entrevista. A escola na qual foi realizado o estudo-piloto não foi incluída na amostra do estudo principal. A seguir, são descritas as variáveis investigadas:

  • Variáveis demográficas: coletaram-se informações relativas ao gênero e à idade do participante.
  • Consumo alimentar: a avaliação do consumo habitual foi realizada por meio da aplicação do Questionário de Freqüência Alimentar para Adolescentes (QFAA), validado por Slater et al2. Trata-se de um questionário de freqüência alimentar semi-quantitativo, contendo 94 alimentos e sete opções de consumo: nunca; menos de uma vez ao mês; de 1 a 3 vezes no mês; 1 vez por semana; de 2 a 4 vezes por semana; 1 vez ao dia; 2 ou mais vezes ao dia. Para facilitar a obtenção de respostas dos entrevistados foi utilizado um material fotográfico elaborado especialmente para a pesquisa, apresentando diferentes utensílios, comumente adotados na alimentação, como pratos, copos e colheres.

Foram analisados os dados referentes à ingestão de energia, proteína, carboidratos e lipídios totais. Para a análise da adequação energética das dietas e do consumo dos macronutrientes, foram utilizadas as Dietary Reference Intakes (DRIs)16. A avaliação do consumo energético foi elaborada comparando-se a ingestão energética obtida para cada adolescente com a necessidade energética estimada. Para o cálculo desta, foram adotadas as fórmulas para crianças e adolescentes de 9 a 18 anos16: EER= 88,5 - 61,9 x idade (anos) + 1,13 x [peso (kg) x 26,7 + 903 x altura (m)] + 25, para os meninos e EER= 135,3 - 30,8 x idade (anos) + 1,16 x [peso (kg) x 10 + 934 x altura (m)] + 25, para as meninas, sendo que EER= Estimated Energy Requirement (Requerimento Energético Estimado). Os desvios-padrão utilizados foram 58kcal para os meninos e 68kcal para as meninas. Foram considerados como faixa de adequação os valores compreendidos entre dois desvios-padrão acima e abaixo do estimado16. Com relação à ingestão dos macronutrientes, as recomendações utilizadas para o cálculo da adequação foram: 45 a 65% do valor calórico total (VCT) provenientes de carboidratos, 10 a 30% do VCT de proteínas e 25 a 35% do VCT de lipídios. Esses dados correspondem à faixa etária de 4 a 18 anos16. Foi investigado o número médio de porções diárias consumidas em relação aos seguintes grupos alimentares: doces, refrigerantes e bebidas com adição de açúcar. Os alimentos e/ou preparações incluídos em cada um desses grupos estão registrados na Tabela 1.

As porções foram determinadas a partir de uma lista de alimentos, proveniente de dados secundários. Foi definido o tamanho das porções segundo a metodologia proposta por Block et al.17.

A análise do número de porções consumidas pelos adolescentes baseou-se nas recomendações do Dietary Guidelines for Americans18 para doces, que sugerem o consumo máximo de duas porções ao dia. Para avaliar o consumo em relação a refrigerantes e bebidas com adição de açúcar, os dados observados foram descritos em diversos estudos24,29,30.

Para a análise da composição nutricional foi adotado o software Dietsys versão 4.0119. Foram excluídos da análise os indivíduos cuja ingestão energética apresentava-se inferior a 500 calorias (ou 5 itens do QFAA) ou superior a 7.000 calorias (ou 51 itens do QFAA)10. A utilização do software Epidata, versão 3.0220, permitiu a construção dos demais dados.

Após a realização do teste de Kolmogorov-Smirnov, optou-se pela adoção de testes não-paramétricos com vistas às análises envolvidas neste estudo. Foram calculadas medidas de tendência central e de dispersão, além de comparar o consumo dos adolescentes, de acordo com o gênero por meio do teste de Mann-Whitney. Adotou-se o grau de significância estatística de 5%. A análise foi realizada com o auxílio do programa Statistical Package for the Social Sciences versão 10.021. Os resultados serão apresentados como média (intervalo de confiança de 95%).

 

Resultados

Foram entrevistados 431 adolescentes e excluídos 41 participantes, distribuídos nas seguintes situações: consumo diário de menos de 5 itens do QFAA (n=2); consumo diário de mais de 51 itens do QFAA (n=7); consumo superior a 7000kcal (n=23) e dados incompletos em relação a alguma variável (n=9). A amostra final incluiu, portanto, 390 participantes com idade entre 10 e 17 anos. A média de idade foi de 12,4 anos, sendo significativamente maior entre os meninos (12,6 vs. 12,2 anos; p=0,017). A distribuição dos adolescentes segundo gênero revelou um discreto predomínio do gênero feminino (53,6%).

Apenas 6,2% dos adolescentes apresentaram ingestão energética em conformidade com o intervalo preconizado. Observou-se que 83,8% da amostra apresentaram ingestão energética acima dos valores propostos (Figura 1). A participação dos macronutrientes no valor calórico total apresentou-se de acordo com as recomendações para a maioria dos adolescentes. Destaca-se, no entanto, o consumo elevado de lipídios, observado entre 36,7% dos adolescentes (Figura 2). Não foi encontrada diferença significativa entre os dados obtidos para os distintos gêneros, quanto à ingestão energética e quanto à participação relativa de macronutrientes na dieta (p>0,05).

 

 

 

 

Foi constatado um consumo elevado de doces entre os entrevistados: em média, 3,8 porções diárias (Tabela 2). Verificou-se que 78,2% dos adolescentes ultrapassaram a recomendação de ingestão máxima de 2 porções/dia. Consumo médio diário de aproximadamente 230ml e 550ml de refrigerante e bebidas com adição de açúcar, respectivamente, foi identificado entre os adolescentes. Não foram observadas diferenças significativas de consumo dos três grupos alimentares investigados, tendo por referência o gênero (p>0,05).

 

Discussão

Nas últimas décadas, e em vários países, tem sido observada uma rápida mudança na composição dietética, que está associada a fatores econômicos, demográficos, sociais, epidemiológicos e nutricionais22. Segundo a recente Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre 2002 e 2003, foi identificado um desequilíbrio entre os alimentos disponíveis nos domicílios, devido à presença excessiva de açúcar, com importante incremento no consumo de refrigerantes23. O presente estudo identificou um quadro semelhante entre adolescentes brasileiros, em relação ao consumo de doces, refrigerantes e bebidas com adição de açúcar.

No entanto, comparações com outros estudos de avaliação do consumo alimentar de adolescentes são limitadas. As metodologias adotadas freqüentemente não são compatíveis e são escassos os trabalhos que descrevem as práticas alimentares desse estágio de vida. Com relação à ingestão energética, os dados obtidos diferem dos encontrados por Kazapi et al.24. Esses autores avaliaram adolescentes de escolas públicas e privadas do município de Florianópolis, Santa Catarina24 e observaram que aproximadamente 50% da amostra apresentaram ingestão energética insuficiente. De maneira oposta, no presente estudo, este valor foi de apenas 10,7%. A maior parte dos adolescentes apresentou ingestão de energia acima das recomendações.

Apesar da adoção de procedimento metodológico distinto, os resultados obtidos por Kazapi et al.24 em relação ao consumo de macronutrientes foram semelhantes aos identificados por meio do presente estudo. Em ambas as pesquisas, mais da metade dos adolescentes revelou um consumo adequado de carboidratos e elevada participação relativa de lipídios. No estudo de Kazapi et al.24 foi identificada proporção de adolescentes com consumo mais elevado, apenas no tocante à proteína, em comparação com os achados do presente estudo.

Assim como o observado neste estudo, outros autores ressaltam o elevado consumo de doces como uma prática comum entre adolescentes25-27. Acredita-se que nos Estados Unidos a ingestão de alimentos pobres em nutrientes represente atualmente mais de 30% da ingestão diária. Entre os principais participantes dessa proporção, são citados os refrigerantes, as balas, o açúcar adicionado e as sobremesas26.

O elevado consumo de doces e de bebidas com açúcar encontrado nesta pesquisa está em conformidade com o crescimento da participação de açúcar na dieta da população brasileira. Segundo os dados da POF, o teor de sacarose da dieta corresponde a 13,7% da energia total disponível, contra um máximo recomendado de 10% para a população adulta23.

O consumo médio diário de refrigerantes observado entre os entrevistados foi inferior ao encontrado por French et al.28. Os autores examinaram as tendências do consumo de refrigerantes pelos adolescentes norte-americanos com idade entre 6 e 17 anos e verificaram que a média de consumo aumentou de 148g para 355g no período de 1977/1978 e 1994/1998. No Brasil, também foi observado um fenômeno semelhante em relação ao consumo de tais bebidas, com um aumento que supera 490%23. Observou-se que a participação relativa do refrigerante no total de energia da dieta aumentou de 0,43% segundo dados do Estudo Nacional de Despesa Familiar (ENDEF), realizado em 1974-1975, para 2,12%23.

O aumento da ingestão energética tem sido positivamente associado ao aumento do consumo de bebidas adoçadas29. Segundo Berkey et al.30, é observado que o consumo excessivo de leite e sucos de frutas pode contribuir também para uma elevada ingestão energética. Mas tais bebidas apresentam uma composição nutricional mais adequada e, portanto, superior em comparação à observada em refrigerantes, tendo em vista que os últimos fornecem baixo conteúdo de micronutrientes e elevado teor calórico30. Esse fato pode justificar a escassez de estudos que descrevam o consumo de bebidas com adição de açúcar.

Os achados descritos são preocupantes, considerando-se a relação entre a adoção de dietas desequilibradas e a manifestação de doenças crônicas. Sabe-se que a ingestão média de bebidas adicionadas de açúcar, incluindo os refrigerantes, pode contribuir para o ganho de peso, sendo associada ao desenvolvimento da obesidade na infância19, 30.

O aumento na prevalência de obesidade tem sido observado nos Estados Unidos e em diversos países, entre todos os estágios de vida, com destaque para sua ocorrência entre pré-escolares e adolescentes. Tendo em vista que a obesidade na infância freqüentemente persiste na vida adulta, o aumento do sobrepeso e obesidade nas crianças é claramente o contribuinte mais expressivo da epidemia de obesidade identificada entre os adultos31. Não restam dúvidas quanto aos prejuízos na qualidade de vida futura dos indivíduos em tal situação e às perdas econômicas e sociais que o quadro envolve. A concomitância de fatores de risco durante o período de crescimento, como as dislipidemias e o aumento da resistência insulínica, está associada a um aumento da mortalidade no adulto devido ao possível desenvolvimento de doença arteriosclerótica, hipertensão e alterações metabólicas. Tal fato destaca a importância da identificação precoce do problema, devendo ser analisadas as variações ponderais desde a infância como prevenção e controle da permanência da obesidade em idades mais avançadas32. Isto é, a prevenção e o tratamento da obesidade na infância são as melhores alternativas para evitar posteriores complicações de saúde27.

O presente estudo apresenta outras limitações. Sabe-se que a utilização de um Questionário de Freqüência Alimentar não permite inferências sobre adequação da dieta, já que compreende uma lista limitada de alimentos. Contudo, a referida análise teve como objetivo principal a elaboração de uma comparação com os valores propostos como ideais para uma alimentação saudável. Os dados apresentados também devem ser analisados com cautela, uma vez que a utilização do referido inquérito alimentar apresenta tendência à superestimativa do consumo alimentar. Por outro lado, é pouco provável que os resultados tenham sido alterados significativamente por esse fato, tendo em vista a semelhança encontrada com outros estudos implementados mais recentemente.

Considera-se ainda, que os Questionários de Freqüência Alimentar são delineados e conduzidos para uma determinada população. Por isso, os resultados obtidos neste estudo não podem ser extrapolados para a população brasileira.

Ressalta-se que as recomendações dietéticas estrangeiras foram consideradas como parâmetro de avaliação do consumo de doces devido à inexistência no Brasil até o momento de guias alimentares abrangentes que especifiquem o tema da alimentação saudável na adolescência.

 

Conclusão

Este estudo encontrou elevada ingestão energética e expressivo consumo de doces, bebidas com adição de açúcar e refrigerantes entre os adolescentes de Piracicaba. Esta alarmante inadequação está de acordo com os resultados encontrados entre adolescentes norte-americanos e a população adulta brasileira. Pode-se concluir que a dieta adotada nesse estágio de vida exige o desenvolvimento imediato de programas de intervenção nutricional. Devem ser adotadas estratégias educativas que enfatizem a redução do consumo de açúcares na alimentação e os benefícios decorrentes da adoção de uma dieta equilibrada. Tais medidas visam contribuir para a qualidade de vida dos adolescentes e a prevenção de agravos à saúde na vida adulta. Sugere-se que sejam realizadas outras pesquisas analisando a prática alimentar adotada na adolescência para a melhor avaliação dos presentes achados e para ampliar o conhecimento sobre as práticas alimentares inerentes a esse estágio da vida.

 

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Correspondência:
Marina Bueno do Carmo
Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo
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E-mail: marinabc@usp.br

Recebido em: 10/11/05
Versão reformulada reapresentada em: 06/03/06
Aprovado em: 21/03/06
Financiamento: Este estudo está vinculado ao projeto intitulado "Consumo dietético e atividade física como determinantes das mudanças do Índice de Massa Corporal de uma coorte de adolescentes matriculados na rede pública de ensino da cidade de Piracicaba, São Paulo", financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) sob o protocolo 02/9521-9.

Associação Brasileira de Pós -Graduação em Saúde Coletiva São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revbrepi@usp.br