RESENHAS BOOK REVIEWS

 

Rodrigo Leite Hipolito; Hayda Josiane Alves

Universidade Federal Fluminense

 

 

 

Gomes R. A saúde do homem em foco. São Paulo: Editora UNESP; 2010

A obra "A saúde do homem em foco" de Romeu Gomes é uma leitura atual e oportuna, pela abordagem clara e objetiva a um tema emergente no campo da saúde, e por suas múltiplas possibilidades de contribuição às reflexões que focalizam o masculino, sem anular a importância do feminino nas discussões sobre cuidados em saúde, sexualidade e violência. Outro ponto forte do livro é a relação dialógica estabelecida entre o pesquisador que apresenta dados de sua experiência de campo, informações bibliográficas e indicadores de saúde, e o homem que vocaliza sua visão de mundo sobre saúde e gênero.

No primeiro capítulo "Ser homem hoje", Romeu Gomes apresenta o homem como ser social, cujo comportamento é produzido reflexivamente à sociedade em que está inserido, variando, portanto, no tempo e no espaço. Apesar das imprecisões verbalizadas pelos próprios homens sobre o que os constituem como homens, destacam-se nas diversas definições um constructo normativo que os qualifica segundo o que a sociedade espera deles, definindo assim, os modelos sociais de gênero; bem como, o poder de agência dos homens ao expressar a existência de distintos processos de interpretação e apropriação de tais modelos; os quais se relacionam às falas implicadas com a experiência humana referente à maneira de se comportar para ser considerado homem.

Partindo destas idéias, o autor ressalta duas importantes definições ao debate: gênero e masculinidade. A primeira se relaciona às formas de socialização dos papéis e modelos do "ser homem", e a segunda é entendida como "um modelo que serve para formar a identidade do homem (ou a maneira de ser homem)" (p.17). O processo de apropriação dos modelos sofre dinamicamente influências e pressões do meio, da idade, da fase do ciclo vital, entre outros fatores. A masculinidade se expressa a partir de um padrão prescrito socialmente na forma de atitudes, comportamentos, emoções, características, valores e condutas, do ser homem numa determinada cultura (p.17-18). Isto conforma, portanto, modelos de masculinidade hegemônicos, os quais tendem a ser naturalizados como um "temperamento inato e singular de cada sexo"1. Em nossa sociedade, um exemplo seria a noção de dominação, força e invulnerabilidade ligada aos homens e, por outro lado, a de subordinação, fraqueza e vulnerabilidade relacionadas às mulheres. Se por um lado é difícil definir o que é homem, é consenso que um dos principais elementos que configuram este universo é a sua distinção face ao que é considerado ser mulher.

No capítulo dois "Os homens e os cuidados com a saúde" o autor toma a complexidade da noção de bem estar como saúde, para problematizar a saúde dos homens no Brasil. Neste sentido, evidencia desigualdades de gênero, destacando a elevada mortalidade de homens por causas externas e por doenças do aparelho circulatório. Ressalta também, fatores relacionados à incipiente busca por serviços e à limitada autonomia dos homens na realização de cuidados em saúde: a dependência dos homens para com os cuidados das mulheres é reforçada através das gerações e no convívio com o sexo oposto; obstáculos oriundos de idéias machistas relacionadas ao modelo masculino do ser homem, medos ligados às representações das doenças; receios/vergonha na exposição a outros homens e mulheres nos serviços de saúde; limites na organização e acesso aos serviços de saúde para os homens, como também, necessidade de se qualificar as estratégias de acolhimento de modo a cotejar as especificidades do gênero. Gomes destaca ainda a existência de importantes desafios necessários ao enfrentamento dos ideais de masculinidade hegemônicos face à necessidade de prevenção de doenças, como exemplo: exame de toque retal para prevenção do câncer de próstata.

Ao falar da saúde do homem em revista, tomando como exemplo a revista "Men's Health", o autor acena para questões importantes que têm singularizado a abordagem midiática contemporânea à saúde dos homens: reforço de um padrão estético que valoriza o macho forte e musculoso; comportamento hegemonicamente heterossexual; fetichização do corpo feminino, em geral com fotos de mulheres brancas; prioridade a um público-alvo constituído por homens brancos de 20 a 50 anos; enfoque ao tratamento de questões relacionadas ao sexo e sexualidade, além da prática de exercícios físicos e nutrição. Se por um lado, a saúde do homem é tratada a partir da diversidade de temas elencados, por outro, são omitidas discussões acerca de males que afetam, em grande escala, a saúde dos homens brasileiros, como a violência.

No terceiro capítulo "Falando sobre a saúde masculina", Gomes transcreve aspectos do comportamento masculino ao problematizar questões ligadas à exposição de aspectos relacionados à vida íntima. Diferentemente das mulheres, que detalham tais questões com maior desinibição, os homens têm receios, medos ou ainda, uma tendência à supervalorização de suas capacidades relacionadas ao ato sexual, em detrimento a possíveis dificuldades ou dúvidas.

O autor remete ao conceito de sexualidade da Organização Mundial de Saúde (OMS) definido como: "uma energia que motiva as pessoas a encontrar amor, contato, ternura e intimidade, fazendo parte do modo como se sentem, se tocam, são tocadas, e influenciando sua saúde física e mental. Envolve preferências, predisposições, experiências, experimentações e descobertas" (p.52). Neste sentido acena para a amplitude do conceito e destaca que a temática não se limita aos órgãos sexuais, abrange todas as idades, não se restringe à reprodução e envolve a comunicação na sua forma mais ampla com as pessoas no mundo.

Posteriormente, descreve as diferenças entre conduta sexual e comportamento sexual. A conduta refere-se aos significados atribuídos às ações baseadas em impulsos ou energias sexuais. Estas ações, por sua vez, constituem o comportamento sexual.

O livro contém uma reflexão ampla sobre sexualidade incluindo a heterossexualidade, a homossexualidade e a bissexualidade nos mesmos patamares, como desejos humanos, pontuais, passageiros, ou mesmo constantes. Apesar de não ser o foco de discussão em seu livro, Gomes destaca o avanço na conceituação de homossexualidade no Brasil. Tomando por referência as definições do Conselho Federal de Medicina (CFM), de 1985, ressalta que homossexualidade não é considerada doença, desvio ou perversão sexual.

Outra questão sexual importante à saúde dos homens se trata das preocupações mais vocalizadas por eles: "falhar na hora H", potência sexual, tamanho do órgão genital, entre outras.

Para Gomes torna-se essencial modificar a postura masculina frente à prevenção de doenças, ampliar a utilização dos serviços de saúde pelos homens e superar questões estigmatizantes e mitos referentes ao corpo, comportamento e conduta sexual masculinos para o desenvolvimento de cuidados à saúde.

O autor finaliza o capítulo evidenciando que as elevadas taxas de doenças sexualmente transmissíveis afetam tanto homens quanto mulheres. Destaca também, a importância da ampla divulgação dos direitos reprodutivos e sexuais.

No quarto e último capítulo "O prejuízo da violência na vida de homens e mulheres", o autor adota o conceito de violência desenvolvido por Maria Cecília Minayo que "consiste no uso da força, do poder e de privilégio para dominar, submeter e provocar danos a outros: indivíduos, grupos e a coletividade" (p.69). Partindo desse conceito destaca as percepções de homens jovens sobre a violência, evidenciando que tais atos se configuram em reflexos de aspectos culturais e sociofamiliares, ou ainda, se constituem como uma espécie de rito de passagem para a vida adulta. Nesta perspectiva, destaca que a violência contra homens e mulheres é influenciada por modelos de gênero. Tal influência pode ser exercida no interior destes grupos e em uma via de mão dupla entre eles. Ressalta ainda, a necessidade de se problematizar a relação entre os modelos de gênero, a orientação sexual dos indivíduos e a produção de atos de violência (agressões, discriminação, preconceito e estigmatização perversa).

Enfim, embora não tenha a pretensão de elencar soluções definitivas para as questões relacionadas à violência, Gomes sugere para a sociedade e para o leitor, passos úteis à reflexão sobre comportamentos e atitudes relacionados à temática. Por fim, destaca que "antes de se pensar o que é ser homem, deve-se pensar o que é ser pessoa e que tanto homens quanto mulheres têm o direito de fazer suas escolhas para serem felizes tanto no campo sexual como na vida em geral". Ao final do livro, o autor acrescenta um glossário sobre gênero, saúde, sexualidade e violência.

Apesar do autor não problematizar as questões abordados na obra face à Política Nacional de Atenção Integral a Saúde dos Homens2, o que poderia ser uma expectativa do leitor, o livro pode ser um importante guia aos profissionais de saúde, educação, entre outros, que desejam desenvolver ações sobre cuidados de saúde, sexualidade e violência com recorte de gênero. Dado o valor de uma obra produzida na forma de conversa, também é uma leitura especialmente adequada para usuário dos serviços de saúde, homens em geral, visto suas inúmeras contribuições no sentido de apontar na perspectiva socioantropológica, aspectos importantes da saúde dos homens de uma maneira clara e concisa, bem como, estimular o autocuidado entre homens.

 

Referências

1. Mead M. Sexo e Temperamento. São Paulo: Perspectiva; 1969.         

2. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Área Técnica de Saúde do Homem. Política nacional de atenção integral à saúde do homem: princípios e diretrizes. Brasília: Ministério da Saúde; 2009.         

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