TEMAS LIVRES

 

Goffman: contribuições para a Sociologia da Saúde*

 

Goffman: contributions to health sociology

 

 

Everardo Duarte Nunes

Doutor em Ciências; professor colaborador voluntário da Faculdade de Ciências Médicas/Unicamp. Endereço eletrônico: evernunes@uol.com.br

 

 


RESUMO

Com uma obra que trouxe inegáveis contribuições, Goffman inovou a pesquisa etnográfica nos estudos socioantropológicos. Esta marca pode ser observada desde os seus primeiros trabalhos nos quais aborda a apresentação do self na vida diária, os manicômios, o estigma e são, por sinal, aqueles que mais referências receberam nos estudos sociais sobre a doença, instituições e práticas de saúde. Neste artigo são analisadas essas contribuições e a importância que tiveram para a construção da sociologia da saúde. O texto destaca alguns conceitos que se tornaram fundamentais para os estudos sociológicos da doença e do paciente, como carreira do paciente, instituição total, interação estratégica e organizações formais instrumentais.

Palavras–chave: Erving Goffman; análise sociológica das práticas médicas; instituições, estigma.


ABSTRACT

Author of a work with undeniable contributions, Goffman brought innovation to ethnographic research in socio–anthropological studies. This characteristic may be already observed in his first works – where he approaches the presentation of 'self' in daily life, asylums, and stigma –, which are those more cited in social studies about the disease, institutions and health practices. This study analyzes these contributions and their importance for the development of the field of health sociology. The text highlights some concepts considered fundamental for sociological studies on the disease and the patient, such as the patient's career, the whole institution, the strategic interaction, and instrumental formal organizations.

Key words: Erving Goffman; sociological analysis of medical practices; institutions; stigma.


 

 

The social world never seems the same after having read Goffman.
Giddens (1987, p. 8).

Se este observador apaixonado pelo real sabia ver tão bem, é porque também sabia o que procurar.
Bourdieu (2004, p. 12).

 

Introdução

Quando faleceu precocemente em 1982, aos 60 anos de idade, Erving Goffman deixou uma obra que seria marcante para a sociologia tanto do ponto de vista teórico como metodológico, sendo o autor de um dos dez livros de sociologia mais importantes do século 20: The presentation of self in everyday life.1

Desde seus primeiros trabalhos, percebe–se que ele era portador de uma nova forma de pesquisar e analisar a vida social. Ele, como outros sociólogos que iriam se destacar no cenário intelectual internacional do final dos anos 50 e início dos 60 do século passado, impregnaram a sociologia com temas novos e novas formas de acercamento da realidade social, num momento muito especial para o desenvolvimento da pesquisa social. Citem–se seus contemporâneos como Howard Becker, Samuel Bloom, Renée Fox, Elliot Freidson, Robert Straus para termos ideia dessa nova geração de cientistas sociais, que no cenário norte–americano não colocaram limites em suas pesquisas para as mais diversas áreas da vida cotidiana, da vida estudantil, das artes, da medicina, etc.

Resgatar Goffman é revisitar a sua importante contribuição para a sociologia da saúde, embora ele nunca tenha se localizado dentro desta especialidade sociológica. Mas suas contribuições, ao conceituar as instituições totais a partir dos hospitais psiquiátricos, a noção de estigma e o conceito de carreira de paciente seriam suficientes para assegurar sua presença nessa área.

Neste ensaio não se pretende dar conta de todas as suas notáveis contribuições, mas retomar aquelas que mais de perto se relacionam ao campo da saúde, doença e medicina. Frente a esse objetivo, usamos como material as próprias obras do autor e de alguns estudiosos do seu trabalho.2

 

Autor e obra

Erving Goffman nasceu em Mannville, Alberta (Canadá) em 11 de junho de 1922, filho de imigrantes judeus russos. Aos 14 anos, em 1938, ingressa na St. John's Technical High School, em Winnipeg. Em 1943 entra em contato com o National Film Board, que lhe enseja a aprendizagem de cinema, que será importante em sua formação intelectual. Seguem–se as suas primeiras experiências no campo da sociologia e da antropologia com Charles William Norton Hart, Ray Birdwhistell (1918–1994), e contato com estudantes de cinema, em especial, com uma estudante de psicologia e interessada em antropologia, Elizabeth Bott e que escreveria um livro, em 1957, que se tornaria referência na antropologia (Familiy and social networks). Em 1945 recebeu seu grau de bacharel da Universidade de Toronto, mas opta por estudar sociologia e antropologia nos Estados Unidos, na Universidade de Chicago, onde obtém os títulos de mestre e doutor, respectivamente, em 1949 e 1953, apresentando a dissertação de mestrado intitulada Some characteristics of response to depicted experience.

Sua tese de doutorado, Communication conduct in a island community, foi o resultado de um ano de pesquisa de campo nas Ilhas Shetland, na Escócia, cujo material foi frequentemente usado em seu livro de The presentation of self in everyday Life, originalmente publicado em 1956. Com este trabalho, Goffman inicia uma brilhante carreira no campo das ciências sociais, interrompida com sua morte prematura, em 1982.

Desde 1954 até 1957, permaneceu como pesquisador visitante no laboratório de estudos do National Institute of Mental Health, época em que realizou estudos nas enfermarias no National Institute of Clinical Center. No período de 1955–6, realizou um ano de trabalho de campo, como observador participante no St. Elizabeth Hospital, em Washington, D.C. O material destas pesquisas resultará no livro Asylums: essays on the social situations of mental patients and other inmates. Em 1958 juntou–se ao staff do Departamento de Sociologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, a convite de Herbert Blumer (1900–1987), onde atinge o grau de professor em tempo integral, em 1962. Nessa data, já havia publicado dois outros livros, ambos escritos no ano anterior: Encounters: two studies in sociology of interaction e Asylums: essays on the social situation of mental patients and other inmates. Em 1968 foi para a Universidade de Pensilvânia como professor de sociologia e antropologia, onde permaneceu até sua morte, no momento em que presidia a American Sociological Association. Outros trabalhos marcantes de sua carreira foram publicados ao longo desses anos, destacando–se: Stigma: notes on the management of spoiled identity (1963); Interaction ritual: essays on face–to–face behavior (1967); Strategic interaction (1969); Relations in public: micro–studies of the public order (1971); Frame analysis: an essay on the organization of experience (1974); Gender advertisements (1979) e Forms of talk (1981).

 

O self, o asilo, o estigma

Com uma obra que trouxe inegáveis contribuições, Goffman inovou a pesquisa etnográfica nos estudos socio–antropológicos. Esta marca pode ser observada desde os seus primeiros trabalhos nos quais aborda a apresentação do self3 na vida diária, os manicômios, o estigma e são, por sinal, aqueles que mais referências receberam nos estudos sociais sobre a doença, instituições e práticas de saúde. Estes foram também os trabalhos que serviram como ponto de partida para as oportunas análises realizadas por Freidson (1983), não para situar o autor no campo da sociologia da saúde, que constitui nosso objetivo, mas para distinguir aqueles aspectos que são fundamentais em sua obra. Ao retomarmos esse texto, produzido para celebrar Goffman, que havia falecido no ano anterior, Freidson ajuda–nos a situar a importância desse sociólogo no cenário das ciências sociais em saúde. Para Freidson (1983, p. 359), "em todos esses trabalhos podemos ver Erving Goffman como o etnógrafo do self".

No Prefácio do livro, Goffman escreve:

No meu entender, este trabalho serve como uma espécie de manual que descreve detalhadamente uma perspectiva sociológica a partir da qual é possível estudar a vida social, principalmente aquela que é organizada dentro dos limites físicos de um prédio ou de uma fábrica. Descreverei uma série de aspectos que formam, juntos, um quadro de referência aplicável a qualquer estabelecimento social concreto, seja ele doméstico, industrial ou comercial. (GOFFMAN, 1983, p. 9).

Esclarece que a perspectiva utilizada é a da representação teatral, com base nos princípios de caráter dramatúrgico. Para Freidson (1983, p. 359), a linguagem desse livro "is very cool, with sufficient irony on occasion to seem more amused than sympathetic. There is a sense of detachment, not engagement". Freidson não concorda com as críticas feitas ao livro de Goffman por serem "superficiais e injustas" e salienta que a importante contribuição é o destaque dado por Goffman àquilo que é comum à vida diária das pessoas: aos sucessos e às ameaças, aos ataques e aos fracassos, mas que na eloquente visão desse sociólogo revela "a afirmação de dignidade e valor do self e a defesa do seu direito de resistir ao mundo social" (FREIDSON, 1983, p. 359). Nesse sentido, Goffman desenvolve o capítulo I, que trata da "representação" que se refere "a toda atividade de um indivíduo que se passa num período caracterizado por sua presença contínua diante de um grupo particular de observadores e que tem sobre estes alguma influência" (GOFFMAN, 1983, p. 29). Isto ele denomina de fachada – a parte do desempenho pelo indivíduo, que é regular, geral, fixa, padronizada. Antes, encaminha o leitor oferecendo algumas definições (GOFFMAN, 1983, p. 23–24) que são básicas para se entender as relações indivíduo/representações: interação, ou "encontro" (face a face) – influência recíproca dos indivíduos sobre as ações uns dos outros, quando em presença física imediata; desempenho – toda a atividade de um determinado participante, em dada ocasião, que sirva para influenciar, de algum modo, qualquer um dos outros participantes; "movimento" ou "prática" – padrão de ação preestabelecido que se desenvolve durante a representação, que pode ser apresentado ou executado em outras ocasiões; papel social – promulgação de direitos e deveres ligados a uma determinada situação social.

O segundo momento importante nesse livro se relaciona às representações das equipes, quando analisa as dinâmicas grupais e a relação entre desempenho e plateia. Para o autor, "o conceito de equipe permite–nos conceber representações levadas a efeito por um ou mais de um ator" (GOFFMAN, 1983, p. 79) e, sem dúvida, a riqueza da elaboração do autor sobre esse conceito pode ser depreendida quando, quase ao final do capítulo que trata desse tema explica:

Uma equipe, por conseguinte, pode ser definida como um conjunto de indivíduos cuja íntima cooperação é necessária, para ser mantida uma determinada definição projetada da situação. Uma equipe é um grupo mas não um grupo em relação a uma estrutura ou organização social, e sim em relação a uma interação, ou série de interações, na qual é mantida a definição apropriada da situação. (GOFFMAN, 1983, p. 99).

Nas conclusões deste trabalho, Goffman assinala:

o indivíduo foi implicitamente dividido em dois papéis fundamentais: foi considerado como ator, um atormentado fabricante de impressões envolvido na tarefa demasiado humana de encenar uma representação; e foi considerado como personagem, como figura, tipicamente uma figura admirável, cujo espírito, força e outras excelentes qualidades a representação tinha por finalidade evocar. Os atributos do ator e os do personagem são de ordens diferentes, e isto de modo inteiramente fundamental; e no entanto ambos os conjuntos têm seu significado em termos do espetáculo que deve prosseguir. (GOFFMAN, 1983, p. 230–231 – grifos no original).

Dois anos após a publicação de The presentation of self... , Goffman torna público um dos livros que se tornariam referência em seu itinerário intelectual: Asylums. Em realidade, este livro, de 1961, é composto por quatro textos, escritos em diferentes momentos, planejados separadamente e tendo como foco principal a situação dos internados, mas que formam uma coerente análise sobre questões que seriam fundamentais na discussão da doença/saúde/instituição mental. Vejamos alguns pontos levantados pelo autor nos diferentes textos que compõem essa obra.

No primeiro, "As características das instituições totais", aparece a expressão instituição total quando o autor trata de duas instituições: hospitais mentais e prisões, considerando a articulação entre internados e equipe dirigente.

Na definição dada pelo autor, instituição total é vista "como um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada" (GOFFMAN, 1987, p. 11). Para o autor, essas instituições podem ser divididas em cinco grupos:

Em primeiro lugar, instituições criadas para cuidar das pessoas que, segundo se pensa, são incapazes e inofensivas; nesse caso estão as casas para cegos, velhos, órfãos e indigentes. Em segundo lugar, há locais estabelecidos para cuidar de pessoas consideradas incapazes de cuidar de si mesmas e que são também uma ameaça à comunidade, embora de maneira não intencional; sanatórios para tuberculosos, hospitais para doentes mentais e leprosários. Um terceiro tipo de instituição total é organizado para proteger a comunidade contra perigos intencionais, e o bem–estar das pessoas assim isoladas não constitui o problema imediato: cadeias, penitenciárias, campos de prisioneiros de guerra, campos de concentração. Em quarto lugar, há instituições estabelecidas com a intenção de realizar de modo mais adequado alguma tarefa de trabalho, e que se justificam apenas através de tais fundamentos instrumentais: quartéis, navios, escolas internas, campos de trabalho, colônias e grandes mansões (do ponto de vista dos que vivem nas moradias dos empregados). Finalmente, há os estabelecimentos destinados a servir de refúgio do mundo, embora muitas vezes sirvam também como locais de instrução para os religiosos; entre exemplos de tais instituições, é possível citar abadias, mosteiros, conventos e outros claustros. (GOFFMAN 1987, p. 16–17).

Para o autor, as características dessas instituições podem ser assim resumidas:

1. todos os aspectos da vida são conduzidos no mesmo lugar e sob a mesma autoridade central;

2. cada fase da atividade diária dos membros é realizada na companhia imediata de uma grande quantidade de outras pessoas, que são tratadas da mesma maneira e das quais são exigidas as mesmas coisas;

3. todas as atividades diárias são rigorosamente estabelecidas em horários, pois uma atividade leva em tempo predeterminado, à seguinte, e toda a sequência de atividades é imposta de cima, por um sistema de regras formais explícitas e um grupo de funcionários;

4. as várias atividades obrigatórias são reunidas num plano racional único, supostamente planejado para atender aos objetivos oficiais da instituição (GOFFMAN, 1987, p. 17–18).

Outro conceito importante, que será inclusive marca das pesquisas em sociologia médica a partir dos anos 60, é o de carreira do paciente, que aparece no segundo texto que Goffman incluiu em seu livro sobre Manicômios. Para ele, em sentido amplo, o termo designa "qualquer trajetória percorrida por uma pessoa durante sua vida" (GOFFMAN, 1987, p. 111). Goffman justifica o uso do conceito, assinalando sua ambivalência: "De um lado ligado a assuntos íntimos e preciosos, tais como, por exemplo, a imagem do eu e a segurança sentida; o outro lado se liga à posição oficial, relações jurídicas e um estilo de vida, e é parte de um complexo institucional acessível ao público". Nesse sentido, a questão fundamental que embasa sua importância está no fato de que o conceito "permite que andemos do público para o íntimo, e vice–versa, entre o eu e sua sociedade significativa, sem precisar depender manifestamente de dados a respeito do que a pessoa diz que imagina ser" (GOFFMAN, 1987, p. 111–112). A ênfase será sobre "os aspectos morais da carreira", ou seja, "a sequência regular de mudanças que a carreira provoca no eu da pessoa e em seu esquema de imagens para julgar a si mesma e aos outros" (p. 112). Assinala que a carreira do doente mental apresenta três fases principais: pré–paciente (anterior à entrada no hospital); internamento (período no hospital); ex–doente (posterior à alta hospitalar). Pode ocorrer, entretanto, readmissão ao hospital (fase de reincidência ou reinternamento).

O terceiro texto é "A vida íntima de uma instituição pública", e logo no início o autor declara que irá tratá–la como um tipo de entidade "as organizações formais instrumentais" (GOFFMAN, 1987, p. 149). Define–as como "um sistema de atividades intencionalmente coordenadas e destinadas a provocar alguns objetivos explícitos e globais". Destacam–se nesse texto os conceitos de "ajustamentos primários" – viver na organização de acordo com o que está programado e "ajustamentos secundários" – formas pelas quais "o indivíduo se isola do papel e do eu que a instituição admite para ele" (GOFFMAN, 1987, p. 160).

Goffman encera o livro com o texto "O modelo médico e a hospitalização psiquiátrica", destacando o fato de que a hospitalização psiquiátrica não se ajusta ao modelo de serviço médico.

O terceiro livro que seria marcante na carreira de Goffman é Stigma [1963] (1978). Como o próprio autor explica, trata–se de um ensaio onde "desejo rever alguns trabalhos sobre o estigma, especialmente alguns trabalhos populares, para ver o que eles podem fornecer à sociologia" (GOFFMAN, 1978, p. 7). Antes, o autor já havia apresentado versões preliminares desse trabalho, em 1957 e em 1962. Ponto fundamental no estudo sobre o estigma é estabelecer sua relação com a questão do desvio, mas o ponto de partida é a noção grega embutida no termo, criado com a finalidade de se referir "aos sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava" (GOFFMAN, 1987, p. 11). Para alguns críticos, como Adam D. Barnhart (2007), esse livro representa uma expansão do seu trabalho sobre a representação do self, considerando que nesse livro ele não havia tratado da natureza dos indivíduos marginalizados, a importância do ritual ou cerimônia na dramaturgia, ou a construção do caráter. Para Goffman:

o termo estigma e seus sinônimos ocultam uma dupla perspectiva: Assume o estigmatizado que a sua característica distintiva já é conhecida ou é imediatamente evidente ou então que ela não é nem conhecida pelos presentes e nem imediatamente perceptível por eles? No primeiro caso, está–se lidando com a condição do desacreditado, no segundo com a do desacreditável. Esta é uma diferença importante, mesmo que um indivíduo estigmatizado em particular tenha, provavelmente, experimentado ambas as situações. (GOFFMAN, 1982, p. 14 – grifos no original).

Importante destacar que Goffman distingue três diferentes tipos de estigmas: as abominações do corpo (deformidades físicas); as culpas de caráter individual (vontade fraca, desonestidade, crenças falsas, etc); estigmas tribais de raça, nação e religião. Focando a análise sobre a informação social – referente a símbolos que identificam o indivíduo, sobre a "visibilidade" de um estigma e sobre a biografia – construída na intersecção da identificação pessoal e da identificação social, o autor fornece excepcionais elementos para a aplicação desta análise a diferentes situações.

Sem dúvida, como aponta Manning (2007), com Stigma, Goffman fornece elementos essenciais para se entender a "identidade", onde se cruzam três elementos: o pessoal, o social e o ego, chamando a atenção para o que Goffman considera a singularidade de cada um – nossa identidade social é o que os outros acham que somos em virtude das nossas filiações a determinados grupos e nosso ego (autoidentidade) refere–se ao que pensamos sobre nós mesmos. Destaque–se, ainda, que os estigmatizados e os "desviantes normais" não constituem opostos, mas, talvez, formem um continuum e que "a manipulação do estigma é uma característica geral da sociedade, um processo que ocorre sempre que há normas de identidade" (GOFFMAN, 1982, p. 141).

 

O legado de Goffman

Os três trabalhos referidos nesta revisão foram produzidos num espaço de tempo que vai do final dos anos 50 e início dos 60. Nos anos 80, Bourdieu (2004) lembrava que Goffman sabia captar como os sujeitos constroem suas identidades e se produzem nas interações sociais mesmo as mais "sutis e fugazes". Nesse pequeno ensaio, o sociólogo francês condensa em poucas palavras a marca desse "Kafka de nosso tempo" – como o chamou Marshall Berman –, que ao explorar "o horror e a angústia" dessa "absurda comédia da vida cotidiana revelou "a teatralidade da vida social".

Mesmo uma revisão incompleta da literatura na área da saúde que tomou a obra de Goffman como referência evidencia que sua recepção foi marcante e, certamente, isto se deve ao fato de que a perspectiva de Goffman "deu à experiência individual mais crédito do que ocorria na teoria sistêmica" (GERHARDT, 1989, p. 80). Nesse sentido, as análises mostram que no final dos anos 50 e início dos 60 ocorreu uma mudança geral de perspectivas teóricas, passando das macro às microanálises. Recorde–se, ainda, o momento em que a psiquiatria era o principal patrocinador da sociologia médica na medicina nos Estados Unidos, tendência que sofreria mudanças no início dos anos 70 quando a psiquiatria mudou sua orientação, enfatizando a psicobiologia e a psicofarmacologia (BLOOM, 1986, p. 272).

Paterson (2003) diz que o trabalho de Goffman sobre o Estigma tem limites, e cita em seu texto a análise da antropóloga Veena Das (2001 apud PATERSON, 2003), que aponta ter Goffman "calcado a sua análise em um atributo altamente individualista do sujeito: o indivíduo aparece como o único portador de valor". Esta crítica se aplica especialmente quando se adota uma perspectiva mais comunitária e antropológica – no sentido de que não é o indivíduo responsável por sua estigmatização, mas a sociedade, quando a natureza da comunidade e da cultura legitimam o estigma e a exclusão (Paterson, 2003).

David Tuckett (1976, p. 208) aponta que o modelo de relações sociais desenvolvido por Goffman que ele denominou de interação estratégica pode ser útil nos estudos das relações médico–paciente, mais do que o modelo racional e normativo. "Tal modelo é apropriado para uma situação de mutual impingement, isto é, quando os atores envolvidos têm alguma coisa a ganhar ou perder quando enfrentam uma interação", pois, como analisa o sociólogo, o conjunto de interações (isto é, as consultas) pode ser visto como um jogo, no qual os participantes experimentam maximizar recompensas, por meio de movimentos (moves) – isto é, agindo com algum propósito. Nesse sentido, o conhecimento do código operacional (operacional code) do paciente e seu estilo de jogar (style of play) podem ser importantes instrumentos no entendimento das relações médicas e das consultas. Nesse sentido, podemos citar os trabalhos de Strong (1979), observando durante três anos 1.120 consultas pediátricas. Gerhardt (1989), analisando esta pesquisa, observa que o interesse do sociólogo não era com os sentimentos, opiniões ou percepções dos pais e médicos, mas com os cerimoniais nos quais eles participavam, nas formas ritualísticas assumidas durante a consulta.

São muitos os exemplos que seguiram de perto as ideias e conceitos criados por Goffman, por exemplo, o estudo antropológico sobre deficientes, de Amaral e Coelho (2003), que usaram os conceitos de carreira moral, estigma ou o trabalho de Moreira e Souza (2002), quando realizaram importante análise sobre a Teoria do estigma de Goffman e a análise relacional. Destacam que essa abordagem teórica é relevante

[na] análise dos movimentos associativos na área da saúde, que podem estar se referindo tanto à perspectiva da auto–ajuda e da ajuda mútua, quanto a uma solidariedade entre pessoas que não necessariamente carregam um marca estigmatizante, ligada a patologias físicas ou comportamentais. (MOREIRA; SOUZA, 2002, p. 38).

Falar da recepção de Goffman no Brasil é lembrar do papel desempenhado pelo antropólogo Gilberto Velho, que não somente o introduziu como referencial de pesquisas, mas utilizou suas abordagens em trabalhos importantes da sua autoria (VELHO, 1974).

Quando Gilberto Velho analisou a recepção de Goffman no Brasil, salientou um dado importante que se refere ao período em que isso ocorreu. Foi no final dos anos 60,

É época da contracultura, de maio de 1968, de estilos de vida alternativos. É dentro desse quadro que, sobretudo, antropólogos e profissionais da área psi, passam a se interessar por Goffman. Embora com certo atraso, começam a ser publicados alguns de seus textos. [...] Nos anos 70, portanto, cresce, progressivamente, o interesse por Goffman, acompanhando de modo claro a aproximação entre antropólogos e a área psi (ver DUARTE, 2000). A análise do cotidiano e das relações inter–pessoais, em uma perspectiva sócio–antropológica, estimulou o desenvolvimento de trabalhos e investigações com preocupação interdisciplinar. (VELHO, 2002, p. 10).

Encerro este ensaio com uma citação longa, mas necessária. Citada por Rodrigues Júnior (2005) em seu primoroso trabalho sobre a relação entre as teorias Goffmanianas e o ensino de línguas, é de autoria de Lemert (1997) e mostra a extensão das contribuições de Goffman para as mais diversas temáticas das humanidades. Para Edwin M. Lemert [1912–1996]:

Se você ainda não sabe porque ler Goffman nos dias de hoje, então se pergunte como você e outras pessoas que você conhece exercem suas influências no mundo como ele é apresentado. Se todas as suas relações sociais são importantes, todos os seus dados claros e límpidos, todas as notícias cuidadosamente dignas de crédito à medida que são passadas para você, então Goffman pode não lhe ser útil. Se, ao contrário, um telefone toca, um som estéreo está ligado, ou uma televisão anuncia sua voz em algum lugar da vizinhança [...]; se você foi retirado de sua leitura para atender à necessidade de alguém com anseios totalmente diferentes daquilo que você fazia; e se você acredita que o mundo, em sua extensa dimensão, é atualmente um mundo de discórdia moral, depressão social e intromissões mediadas, cuja estrutura é a dinâmica da participação social ativa, então Goffman pode lhe ser útil. (LEMERT, 1997, p. xli).

 

Referências

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Recebido em: 06/03/2008.
Aprovado em: 05/11/2008.

 

 

*Palestra proferida no IV Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, XIV Congresso da Associação Internacional de Políticas de Saúde e X Congresso Latino–Americano e Medicina Social, Salvador, Bahia, de 13 a 18 de julho de 2007.
1A escolha foi realizada por 455 dos 2.785 membros da International Sociological Association, em 1997, e o livro de Goffman aparece em décimo lugar, com 5,5% dos votos.
2Dentre os trabalhos publicados no Brasil que tratam de forma especial a obra de Goffman, citamos: MALUFE, J. R. A retórica da ciência: uma leitura de Goffman, São Paulo: Educ, 1992 – traz uma bibliografia completa do autor, acompanhada da bibliografia dos trabalhos publicados no Brasil e uma bibliografia selecionada de trabalhos sobre Goffman, resenhas críticas, artigos críticos e pesquisas feitas no Brasil; GASTALDO, E. (org.). Erving Goffman: desbravador do cotidiano. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2004 – coletânea de textos sobre Goffman e sua obra. Outros textos importantes: MANNING, P. Erving Goffman (1922–1982). Disponível em: http://www.csuohio.edu/sociology/Manning/GoffmanEncyclopediaSocTheory.doc – biografia e análise dos principais trabalhos de Goffman; VELHO, G. Becker, Goffman e a antropologia no Brasil (2004) – relata a visita desses sociólogos ao nosso país em 1978 e suas influências sobre as ciências sociais brasileiras.
3Seguindo uma tendência apontada por Andacht (2004, p. 125), o termo self será utilizado neste texto, excetuando–se os casos nos quais os trechos são transcritos, "seguindo assim um costume acadêmico que é cada vê mais frequente em português, em vez da tradução antiga (e não satisfatória) de "eu".

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